Nos seus dois últimos anos à frente da Corregedoria Nacional de Justiça, o ministro Mauro Campbell nomeou um advogado próximo para ocupar cargos no Fórum Nacional de Recuperação Empresarial e Falências, o Fonaref, que orienta juízes de todo o país em matéria de insolvência empresarial. Trata-se de Luciano Araújo Tavares, sócio do escritório Figliuolo, Gentil, Tavares & Brandão, o FGTB.
Como revelou o Bastidor, o advogado e seu escritório têm fortes ligações com Campbell. Ele é sócio de um sobrinho de consideração do ministro. O FGTB, em alguns processos, atua em parceria com a filha do magistradro, que também é advogada.
Tavares e seus sócios aparecem em registros fotográficos ao lado do ministro em eventos jurídicos no Brasil e no exterior, incluindo o Fórum Jurídico de Lisboa e um congresso em Madri. O Instituto Amazonense de Ciências Jurídicas, o Iacejur, presidido pelo sócio Ayrton Gentil Neto, organizou em Manaus lançamentos de livros do próprio Campbell, com patrocínio direto do escritório.
A proximidade com Campbell rendeu a Tavares posições de crescente influência no CNJ. A primeira nomeação, em maio de 2023, veio ainda sob a gestão de Rosa Weber na presidência do CNJ, que incluiu o advogado como membro permanente do Fonaref.
Já sob Campbell como corregedor, em maio de 2025, Tavares foi nomeado coordenador da Comissão Técnica Especial para propor medidas sobre recuperação judicial e falência de produtores rurais, função que o colocou no mesmo nível hierárquico de ministros do Superior Tribunal de Justiça e desembargadores. Foi o único representante da advocacia privada com essa posição no grupo. Em março de 2026, uma terceira portaria o incluiu em um comitê técnico voltado ao diagnóstico nacional sobre especialização de varas de insolvência. Campbell, que tomou posse como corregedor em setembro de 2024, deixa o cargo em setembro deste ano.
As nomeações não preveem remuneração, mas posicionam o advogado na produção normativa que baliza decisões judiciais em recuperações e falências no país, áreas de atuação do seu escritório.
Membro do Superior Tribunal de Justiça, Campbell pediu vista no fim do ano passado num processo milionário oito dias depois de o escritório de Tavares entrar na defesa de uma das partes. Como mostrou o Bastidor, o pedido veio antes de qualquer voto ser proferido e num momento em que o empresário que contratou o FGTB acumulava derrotas no tribunal.
Na sexta-feira (26), o Bastidor questionou por e-mail Tavares, o FGTB e o CNJ sobre os critérios que embasaram as nomeações, sobre a compatibilidade entre os cargos no Fonaref e a atuação simultânea do escritório em processos com participação do ministro no STJ. Não houve retorno.

