Até pouco tempo atrás, o médico e influenciador Gabriel Almeida mantinha uma relação próxima com executivos da EQR Capital. Convidava-os para festas em sua ilha particular na Bahia e chegou a ajudá-los na captação de recursos. No início deste mês, porém, a relação azedou. Almeida acionou a Justiça de São Paulo contra a empresa de investimentos, alegando ter perdido quase 11 milhões de reais em um “esquema de pirâmide financeira”.

Almeida é conhecido nas redes sociais como Doutor Mounjaro. Tem cerca de 755 mil seguidores no Instagram, onde posta vídeos sobre emagrecimento e vende cursos para médicos interessados em replicar seu método de perda de peso em consultórios. Em novembro passado, Almeida foi alvo de uma operação da Polícia Federal contra uma rede clandestina de produção de canetas emagrecedoras, o que lhe valeu o apelido de “Doutor Mounjaro”. Almeida nega envolvimento na fabricação ou manipulação desses produtos.

Numa ação cível apresentada no Tribunal de Justiça de São Paulo no último dia 11, Almeida afirma ter feito quatro aportes na EQR, num total de 10,75 milhões de reais. Os investimentos foram formalizados por contratos de mútuo, com promessa de retorno de 3% a 5% ao mês – taxa muito acima da média do mercado – e imóveis oferecidos como garantia. Segundo ele, os rendimentos foram pagos nos primeiros meses, mas logo deixaram de ser honrados. As garantias também não apareceram.

Agora, ele quer receber de volta todo o dinheiro que investiu, com correção monetária pelo IGP-M desde cada pagamento. A ação também cobra juros de 1% ao mês e multa de 2%. Almeida ainda pediu à Justiça o bloqueio de bens e contas dos diretores da EQR, a anulação dos contratos e uma indenização de 20 mil reais por danos morais.

O relato ajuda a dimensionar a desconfiança sobre EQR, patrocinadora do Santos Futebol Clube, que cresceu no mercado oferecendo ativos com rentabilidade elevadíssima. A empresa não tem registro no Banco Central nem autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para oferecer investimentos. Ainda assim, documentos obtidos pelo Bastidor mostram que ela captou recursos de mais de 370 investidores em 19 estados. Os contratos analisados pela reportagem somam 51,9 milhões de reais, mas fontes ligadas à EQR dizem que o total ultrapassa 300 milhões de reais.

Assim como Almeida, outros investidores têm enfrentado dificuldades para reaver o dinheiro aplicado. A dinâmica descrita por ele se repete em ações e queixas de clientes da EQR: os rendimentos prometidos são pagos no início, o que ajuda a criar confiança, mas deixam de ser honrados nos meses seguintes.

O caso do médico, porém, tem uma particularidade. Segundo duas pessoas ligadas à EQR, ele não era apenas investidor: também atuava nas bordas da operação, ajudando a aproximar a empresa de médicos que acompanham seu trabalho no Instagram. Em troca, dizem essas fontes, recebia uma comissão.

Almeida nega que tenha atuado como intermediário da EQR. Afirma que a empresa se aproximou dele de forma deliberada ao longo de 2025 e explorou sua influência. Segundo o médico, os executivos identificaram sua entrada na comunidade médica e passaram a vê-lo como uma porta de acesso a novos investidores.

No processo, Almeida aponta Carlos Henrique Nunes dos Santos, diretor de visão estratégica da EQR, como principal articulador dessa aproximação. No Instagram, Carlos Henrique publicou fotos e vídeos na praia com Almeida, a quem se referia como amigo. Também foi de helicóptero para a ilha privativa do médico, na Baía de Todos-os-Santos.

Mais tarde, segundo a ação, a interlocução passou a ser feita por Ana Carolina Souza da Cruz, a Carolina Cruz, da Investeseg Financial, descrita como intermediária que prometia a médicos acesso a clubes restritos de investimento com ganhos de até 80% ao ano, taxa exorbitando para os padrões do mercado.

A versão de Almeida é a de que a EQR usou sua imagem para captar clientes em eventos promovidos por ele. Um deles foi o “Gestão e Empreendedorismo na Medicina”, realizado em julho do ano passado no Palácio Tangará, em São Paulo, com a presença de 240 médicos. Carolina Cruz palestrou sobre investimentos e renda passiva. Era nesses encontros que a EQR buscava se aproximar de potenciais investidores. Alguns participantes fizeram aportes semelhantes aos de Almeida e também tiveram prejuízo quando os pagamentos foram interrompidos.

Um empresário que rompeu com a EQR vê o caso de outra forma. Segundo ele, Almeida não foi apenas uma vítima, mas peça fundamental na engrenagem criada para captar dinheiro de profissionais da saúde. Esses médicos passaram a cobrar Almeida depois que a EQR deixou de pagar os rendimentos prometidos e não devolveu o dinheiro aplicado. Ao acionar a Justiça, relata o empresário, Almeida estaria tentando reforçar a versão de que é apenas mais um prejudicado.

O uso da imagem de Gabriel Almeida e a captação de recursos de médicos, no entanto, representam apenas uma fração da operação. O Bastidor teve acesso a mais de mais de 650 contratos de investimento firmados pela EQR entre junho de 2024 e agosto de 2025. O material não inclui os contratos assinados com médicos que chegaram à EQR por meio de Almeida e de outros intermediários. Ainda assim, revela a extensão da engrenagem de captação da empresa.

Como muitos clientes assinaram mais de um contrato, o número de documentos é superior ao de investidores identificados. Os contratos analisados somam 51,9 milhões de reais e envolvem mais de 370 investidores.

Além dos contratos, o Bastidor teve acesso a planilhas internas da equipe e a acordos firmados com os chamados finders, intermediários pagos para indicar clientes à EQR. O conjunto mostra que a empresa chegou a investidores de ao menos 125 cidades. Os aportes iam de valores pequenos, como 500 reais, a contratos milionários. O maior deles, em um único documento, foi de 2,1 milhões de reais.

O ritmo de crescimento se intensificou em 2025. O pico ocorreu em junho daquele ano, quando a EQR fechou 50 contratos e captou 4,9 milhões de reais em apenas um mês. A promessa era quase sempre a mesma: retornos mensais elevados, muito acima dos praticados no mercado tradicional. Nos contratos analisados, a taxa média era de 2,84% ao mês, o equivalente a cerca de 40% ao ano. Em alguns casos, a EQR oferecia 5% ao mês – quase 80% ao ano. Para dimensionar o tamanho da distorção, ao longo do ano passado a taxa Selic, parâmetro de juros, subiu de 13,5% para 15% ao ano.

Para sustentar pagamentos nesse patamar, a EQR precisaria ter uma fonte de receita extraordinariamente lucrativa e recorrente. Os documentos examinados pela reportagem não indicam a existência de uma atividade capaz de gerar esse volume de dinheiro.

A engrenagem de captação ajuda a explicar como a EQR cresceu. Uma planilha interna mostra que ao menos 54 pessoas passaram pela operação como consultores ou gerentes. A estrutura chegou a ser dividida em 11 equipes. Na versão mais recente do documento, ainda havia 18 pessoas ativas, organizadas em quatro equipes, com atuação em São Paulo, Ribeirão Preto e Santa Catarina.

Além dessa força de vendas, a EQR mantinha contratos com finders em seis estados: São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pernambuco. A remuneração prevista era agressiva: 4% sobre o valor captado e mais 4% ao mês sobre o saldo investido pelo cliente indicado.

Na prática, isso tornava a operação ainda mais difícil de sustentar. Somadas, a taxa média paga ao investidor e a comissão mensal prometida ao captador faziam o custo da EQR chegar a quase 7% ao mês ou mais de 120% ao ano. O desenho reforça a suspeita de que os pagamentos dependiam da entrada contínua de novos recursos, num esquema de pirâmide financeira.

A EQR também usava intermediários que não apareciam nos contratos formais de finder. É o caso de Carolina Cruz, citada na ação de Gabriel Almeida. Ela também aparece em outro processo movido contra a EQR por uma empresária de Mato Grosso, dona de uma clínica de estética. A empresária afirma ter sido enganada por Carolina e diz ter perdido 2,2 milhões de reais após investir em empresas indicadas por ela, entre elas a própria EQR. A ação também menciona suspeita de pirâmide financeira.

O Bastidor procurou a EQR, Gabriel Almeida e Carolina Cruz na tarde desta segunda-feira, 22. A empresa foi questionada sobre a suspeita de pirâmide financeira, a origem dos recursos usados para pagar os rendimentos prometidos, a falta de registro no Banco Central e de autorização da CVM, o valor total captado e a remuneração de intermediários.

Almeida foi questionado sobre a versão de que teria aproximado a EQR de médicos e recebido comissão por isso. Carolina foi questionada sobre sua atuação como intermediária, a oferta de investimentos com ganhos de até 80% ao ano e a acusação, feita em outro processo, de que indicou operações suspeitas. Nenhum deles respondeu até a publicação.