Patrocinadora do Santos Futebol Clube, a EQR Capital cresceu no mercado de investimentos oferecendo ativos com promessa de retorno de até 30% ao ano. Apesar da rentabilidade elevada, a empresa afirma que as aplicações são seguras e garantidas por imóveis. Nos últimos meses, porém, clientes passaram a reclamar de atrasos em pagamentos, da não devolução dos aportes iniciais e da ausência das garantias prometidas.

Ao mesmo tempo, uma investigação do Ministério Público Federal e da Polícia Federal identificou indícios de que parte do capital declarado pela empresa pode existir apenas no papel, prática que, segundo o MPF, costuma ser usada para transmitir ao mercado uma aparência de solidez financeira inexistente.

Relatos obtidos pelo Bastidor apontam um padrão de operação: os rendimentos prometidos são pagos nos primeiros meses, o que ajuda a criar confiança entre os investidores, mas o valor aplicado inicialmente deixa de ser devolvido no vencimento dos contratos. “O rendimento caiu normalmente, mas o principal nunca voltou”, afirmou um investidor do Rio Grande do Sul no Reclame Aqui.

Outro investidor, de São Paulo, relata que a empresa prometeu garantias imobiliárias que nunca apareceram nos cartórios. Um terceiro, de Minas Gerais, diz que só conseguiu receber seu dinheiro após fazer reiteradas reclamações públicas. Até o fechamento desta reportagem, havia oito reclamações registradas. O valor mínimo declarado como retido supera 300 mil reais, embora quatro denúncias não informem os valores envolvidos.

A EQR capta recursos por meio de estruturas fora do sistema financeiro regulado. Não tem registro como instituição financeira no Banco Central nem autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para distribuir os produtos que oferece aos investidores. Apresenta-se como um “hub de negócios na economia real”, com atuação nos setores imobiliário, agro, infraestrutura e tecnologia. Especialistas afirmam que operações de captação fora do sistema regulado não são necessariamente ilegais, mas são mais arriscadas para o investidor.

No comando da EQR estão Carlos Eduardo de Carvalho Vanzei, conhecido como Cadu, Carlos Henrique Nunes dos Santos e Wesley Gomes. Cadu, de 44 anos, é o diretor executivo. Carlos Henrique, de 35, responde pela visão estratégica do grupo, enquanto Wesley, de 41, atua na diretoria de operações. Eles exibem nas redes sociais uma rotina de luxo, com jatinhos, helicópteros e carros esportivos. Segundo relatos feitos ao Bastidor, os executivos usam um Lamborghini Urus, avaliado em cerca de 4 milhões de reais, além de veículos das marcas Audi, BMW e Mercedes.

Para captar recursos, o grupo usa contratos de mútuo, crowdfunding e securitização de direitos creditórios. Um dos produtos oferecidos no ano passado foi o “CR EQR Holding I”, apresentado com rentabilidade-alvo de 30% ao ano, pagamento mensal de proventos, investimento mínimo de 10 mil reais e prazo de 12 meses. Nos materiais de divulgação, o produto era descrito como crédito estruturado na modalidade dívida. A empresa também emitiu debêntures de 10 milhões de reais com garantia real e atua com cotas de consórcio imobiliário e cartas de crédito.

Um empresário do setor de securitização do interior paulista afirmou ao Bastidor, sob condição de anonimato, que foi contratado pela EQR no fim de 2025 para estruturar operações com direitos creditórios. Segundo ele, a estratégia consistia em adquirir esses direitos com desconto, agrupá-los numa carteira e revendê-los a investidores. Em um mês, cerca de 3 milhões de reais em direitos creditórios foram captados. A meta era atingir 100 milhões de reais em um ano. O empresário afirma que rompeu a parceria logo no início, após não receber pelos primeiros ativos negociados. Conseguiu recuperar os direitos antes da conclusão das transferências e saiu sem prejuízo.

A fachada regulatória

Enquanto captava recursos por meio de estruturas não reguladas, a EQR criou uma vitrine regulatória com quatro fundos registrados na CVM, sob gestão da SmartSave, gestora de Curitiba autorizada desde 2024. Os fundos identificados são: EQR Retrofit Fundo de Investimento Imobiliário, Opportunities Fundo de Investimento Imobiliário, Venture Builder I Fundo de Investimento em Direitos Creditórios e EQR Essential Fundo de Investimento Financeiro Multimercado Crédito Privado. A administração fiduciária é feita pela Planner.

Documentos da CVM mostram, porém, que os fundos tinham pouca ou nenhuma participação de investidores externos. O Retrofit possui apenas um cotista, uma pessoa jurídica não financeira. O Opportunities e o Venture Builder I foram criados em janeiro de 2026 e ainda não concluíram a captação pública. O Essential aparece como “em funcionamento normal”, mas não apresenta demonstrações financeiras, balancetes, carteira de ativos ou qualquer outro documento no sistema da CVM. Os quatro fundos foram criados entre outubro do ano passado e fevereiro deste ano.

No início do ano, Carlos Henrique afirmou à revista Exame que a EQR tinha cerca de 600 investidores e ativos em processo de integralização avaliados em 573 milhões de reais. Na entrevista, apresentou a SmartSave como responsável pela conformidade regulatória da operação. Os documentos analisados pela reportagem indicam, porém, que os investidores mencionados não estão nos fundos regulados da gestora. Na prática, a estrutura apresentada ao mercado como regularizada não contempla os investidores citados pelo diretor da companhia.

Diretores da EQR Capital aparecem em vídeo falando sobre garantias oferecidas aos investidores da empresa. Nas imagens aparecem Carlos Eduardo de Carvalho Vanzei (Cadu), Wesley Gomes e Carlos Henrique Nunes dos Santos.

Vídeos obtidos pela reportagem mostram executivos da EQR assegurando aos clientes que os investimentos seriam protegidos por garantias reais. Em uma gravação, Cadu afirma: “Somos a única do mercado que garante o investimento do investidor, a gente dá um imóvel de garantia”. Em outro vídeo, um funcionário da empresa diz que, além dos imóveis, os clientes também têm como garantia cotas da própria holding.

A holding utilizada pelo grupo é a Holding Six S.A., que declara capital social de 100,39 milhões de reais, integralizado por imóveis e por uma Cédula de Produto Rural (CPR) Verde – título de crédito que remunera produtores rurais em troca de preservação do meio ambiente -, que representa quase 50 milhões de reais desse total. A verificação dos ativos nos cartórios, porém, revelou divergências em relação ao que a empresa declara.

Um imóvel em Angra dos Reis, por exemplo, aparece avaliado em 6 milhões de reais no laudo da companhia. A matrícula mostra que o bem havia sido transferido meses antes por 3 milhões de reais e ainda possuía alienação fiduciária registrada -ou seja, está vinculado a uma dívida. O imóvel está ligado à EVS Engenharia, empresa anteriormente controlada por Cadu, e não à Holding Six. Já a CPR Verde foi transferida para a subsidiária EQR Green Assets. A liquidez e o valor de mercado desse tipo de ativo são de difícil verificação.

Em março, poucos dias antes da emissão das debêntures de 10 milhões de reais, a Holding Six transferiu seu controle para a Sunstone Corporation, offshore registrada em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. Documentos societários apontam Cadu como procurador da offshore e único gestor identificado da operação no Brasil. A mudança dificulta a identificação do controle efetivo da companhia.

O rastro das investigações

Os diretores da EQR acumulam histórico de dívidas e investigações. Cadu é alvo de duas apurações distintas. A primeira é estadual. A Delegacia de Sertãozinho, no interior de São Paulo, instaurou inquérito por suspeita de estelionato relacionado a um empréstimo bancário feito pela EVS Engenharia. A operação ocorreu durante o processo de transferência do controle da empresa para Cadu, especificamente entre a assinatura do contrato de cessão e o registro na Junta Comercial. O antigo proprietário da EVS diz que não autorizou o empréstimo.

O Ministério Público pediu o arquivamento do caso sob o argumento de que Cadu operava a empresa com senhas e acessos fornecidos pelo antigo proprietário, sem indícios de má-fé. A vítima recorreu à Procuradoria-Geral de Justiça, mas o arquivamento foi mantido, em decisão de março. Paralelamente, segue ativo o processo civil em que o antigo proprietário aparece como devedor solidário do empréstimo de 1,3 milhão de reais. Documentos da Junta Comercial mostram que Cadu deixou formalmente a EVS um dia após a abertura do inquérito.

A segunda investigação foi aberta a pedido do Ministério Público Federal em fevereiro. Cadu é alvo de um inquérito da PF que apura suspeitas de crime contra o sistema financeiro. O outro investigado é Thiago Maloste Butezloff, administrador da Liveb Investimentos, empresa condenada pela CVM em 2023 por captar recursos sem autorização sob promessa de altos rendimentos. A companhia foi condenada a pagar 300 mil reais, enquanto Butezloff recebeu multa de 150 mil reais. Um ano antes, a CVM já havia alertado o MPF a respeito de suspeitas de crimes financeiros. As semelhanças entre Liveb e EQR chamam atenção. Ambas operam com estruturas ligadas ao mercado imobiliário, prometem alta rentabilidade e atuam fora do sistema financeiro tradicional.

A ligação entre Cadu e Butezloff aparece numa denúncia enviada ao MPF em outubro do ano passado por uma advogada de Ribeirão Preto. Entre os pontos analisados pelos investigadores está a evolução da Holding Six. Sob o mesmo CNPJ, a companhia passou de empresa individual, em 2019, para sociedade anônima em 2025. O que mais chamou a atenção, porém, foi o crescimento do capital social declarado. Durante anos, a empresa manteve capital de 40 mil reais. Em junho de 2025, o valor saltou para 44,1 milhões de reais. Menos de um ano depois, ultrapassou 100 milhões de reais.

Parte desse aumento foi registrada em nome de um jovem que até 2023 trabalhava como armazenista e recebia cerca de 2 mil reais por mês. Em despacho obtido pelo Bastidor, o MPF afirma que a presença de pessoas aparentemente sem capacidade financeira entre os responsáveis pelo aumento do capital indica que parte dos valores declarados pode não ter sido efetivamente integralizada. Segundo o órgão, aumentos artificiais de capital são usados para transmitir ao mercado uma aparência de solidez financeira incompatível com a situação real da empresa – prática que, de acordo com o despacho, pode configurar falsidade ideológica e crime contra o sistema financeiro.

Carlos Henrique, por sua vez, acumula mais de 4 milhões de reais em cobranças judiciais relacionadas a operações de securitização. Em dois processos obtidos pelo Bastidor, ele e a EMAT Engenharia, empresa à qual é ligado, são acusados de deixar de pagar dívidas renegociadas e formalizadas em acordo. Uma das ações foi ajuizada em março de 2024, em Tatuí; a outra, em julho do mesmo ano, em Vinhedo. Em um dos casos, houve pagamento apenas da primeira parcela; no outro, nenhuma parcela foi paga. Dois anos depois, Carlos Henrique afirma ter mais de meio bilhão de reais em ativos sob gestão.

EQR estampa a camisa do Santos enquanto investidores relatam atrasos em pagamentos e dificuldade para recuperar o dinheiro aplicado (Foto: Reinaldo Campos/Santos FC)

O jogo da credibilidade

Para construir credibilidade pública, a EQR aposta em associações com o futebol e figuras conhecidas. Segundo outro empresário que trabalhou com a companhia e depois rompeu relações, a aproximação com o Santos Futebol Clube ocorreu por intermédio do coach e influenciador Bruno Avelar. O contrato de patrocínio foi fechado por 5 milhões de reais, divididos em cinco parcelas de 1 milhão de reais – valor que, segundo ele, foi quitado. A empresa também patrocina o ex-jogador André Santos e o piloto da Fórmula Indy Nick Monteiro. O ex-jogador de futsal Falcão já atuou como embaixador da marca.

A EQR também aparece em vídeos no YouTube. As publicações seguem uma estrutura semelhante: apresentam a empresa como oportunidade de baixo risco e alta rentabilidade, destacam o patrocínio ao Santos e associam a marca ao nome de Neymar, embora o jogador não tenha vínculo com a companhia. Em alguns casos, os apresentadores afirmam que “tudo em que Neymar se envolve vira sucesso” e citam criptomoedas que teriam se valorizado após associação ao atleta. A repetição dos roteiros indica uma estratégia coordenada de divulgação.

O uso do futebol para construir credibilidade no mercado financeiro não é inédito. A Fictor patrocinou o Palmeiras antes de entrar em recuperação judicial e hoje acumula dívidas superiores a 4 bilhões de reais com mais de 13 mil credores. A empresa, que ficou conhecida pela tentativa frustrada de compra do Banco Master, operava por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs), modelo em que investidores aportam recursos em troca de participação nos lucros. Embora previsto na legislação, o formato não é regulado pela CVM.

Antes da criação da EQR, Carlos Henrique e Wesley Gomes atuavam na Commel Invest. A empresa mais tarde deu origem à Enriquecer Capital, considerada o embrião do atual grupo EQR – a sigla deriva justamente da palavra “enriquecer”.

Em maio de 2024, a Commel anunciou no Instagram a oferta de um “Fundo de Participação em Empreendimentos Imobiliários”, com promessa de rentabilidade de até 24% ao ano. Apesar da nomenclatura, o produto era uma SCP. Em outubro do mesmo ano, a empresa abriu captação para o Residencial Adelvan da Rita I, em Iturama, no interior de Minas Gerais. A oferta prometia rentabilidade de até 2,5% ao mês, prazo de 24 meses, investimento mínimo de 5 mil reais e “garantias por contrato e seguro”. A obra não foi concluída, e investidores afirmam buscar respostas até hoje.

Commel Invest ofertou SCP como fundo e lançou captação imobiliária com promessa de rentabilidade de até 2,5% ao mês (Foto: Reprodução/Instagram)

Em abril de 2025, a Commel passou a se chamar Enriquecer Capital e foi incorporada à Holding Six S.A. A empresa segue registrada na CVM como assessoria de investimentos, categoria autorizada a atuar apenas como intermediária de corretoras e distribuidoras na oferta de produtos financeiros, sem permissão para captar recursos diretamente de investidores, como o grupo EQR passou a fazer.

Dois meses após a mudança, Daniel Alexandre Zanon, único diretor responsável habilitado da Enriquecer Capital perante a CVM, deixou a sociedade. Nenhum substituto foi formalmente registrado. Ainda assim, o grupo manteve as operações de captação. Em julho de 2025, surgiram no Reclame Aqui as primeiras queixas sobre dinheiro retido sob a marca EQR, nos primeiros sinais públicos de que o modelo antes adotado pela Commel migrou para a nova estrutura.

Procurados pela reportagem, a EQR e seus executivos Carlos Eduardo de Carvalho Vanzei, Carlos Henrique Nunes dos Santos e Wesley Gomes foram questionados sobre as reclamações de investidores, as promessas de rentabilidade, as garantias oferecidas pela empresa, a estrutura da Holding Six, as investigações citadas na reportagem e a transferência do controle da companhia para uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.

Em nota assinada pela Holding Six S.A., a EQR afirmou que eventuais reclamações de investidores devem ser analisadas individualmente e disse que algumas das situações mencionadas podem envolver estruturas ou operações anteriores à atual organização do grupo. A empresa não respondeu diretamente aos questionamentos sobre dinheiro retido e garantias imobiliárias prometidas a investidores e não localizadas nos cartórios.

A companhia também afirmou que não realiza captação pública de investidores, não distribui valores mobiliários e não atua como instituição financeira. Segundo a nota, a EQR trabalha na originação e estruturação de projetos ligados a ativos reais, principalmente no setor imobiliário, enquanto operações reguladas seriam conduzidas por agentes autorizados do mercado.

Sobre a transferência do controle da holding para uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, a empresa afirmou que a mudança faz parte de uma reorganização societária voltada ao “aprimoramento da governança” e aos planos de expansão internacional do grupo.

A EQR também afirmou não possuir “qualquer conexão” com o inquérito conduzido pela Polícia Federal de Ribeirão Preto e classificou os elementos que embasam a investigação como “infundados e inexistentes”. (Leia a íntegra da nota abaixo).

A CVM também foi questionada sobre a situação regulatória da EQR. Em nota, a autarquia afirmou que suas áreas técnicas “acompanham e analisam informações e movimentações no âmbito do mercado de valores mobiliários brasileiro, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário”. A comissão acrescentou que “as áreas técnicas da autarquia não comentam casos específicos”.

O Santos Futebol Clube foi procurado para comentar os valores, a duração e os critérios de compliance adotados no contrato de patrocínio firmado com a EQR, além de eventual reavaliação da parceria diante das informações apuradas pela reportagem. O clube não se manifestou.

A assessoria de Neymar foi procurada para informar se o jogador possui ou já possuiu vínculo com a EQR e se houve autorização para uso de seu nome em conteúdos relacionados à empresa. Não houve retorno até a publicação da reportagem.

Leia a íntegra da nota enviada pela EQR: