O Ministério Público de São Paulo desistiu de firmar um acordo de delação premiada com o dono da Copape, Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, e com Roberto Augusto Leme, o Beto Louco. Os promotores consideraram que as informações oferecidas pela dupla não fazem diferença nas investigações da operação Carbono Oculto.
Desde a deflagração da operação, em agosto de 2025, Beto Louco e Mohamadestão foragidos há oito meses e com os nomes incluídos na lista vermelha da Interpol. A última localização conhecida da dupla é na Líbia. Mesmo assim, seus advogados procuram as autoridades desde o fim do ano passado para negociar um acordo de delação em troca de benefícios.
Os promotores consideram que Mohamad e Beto Louco queriam entregar muito pouco do que sabem. Afirmam que as provas apresentadas por eles são insuficientes para as investigações, que suas versões contêm omissões relevantes sobre o esquema e que o valor de 1 bilhão de reais, oferecido pela dupla como ressarcimento aos cofres públicos, é inferior à quantia total das fraudes, que incluem adulteração de combustíveis, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Juntas, elas superam quase 52 bilhões de reais.
Mohamad é dono da Copape, a distribuidora de combustíveis que deve mais de 9 bilhões de reais ao estado de São Paulo e é suspeita de atuar em favor do PCC.
A primeira tentativa de acordo foi com a Procuradoria-Geral da República. Os advogados disseram que Mohamad e Beto Louco estavam dispostos a entregar informações sobre o esquema de fraude no setor de combustíveis e de lavagem de dinheiro por meio do uso de postos de combustíveis, que beneficiou também o PCC, a maior facção criminosa do país. Ainda na análise preliminar, os procuradores rejeitaram a delação por falta de elementos robustos e recomendaram que o caso fosse conduzido na primeira instância.
Em sua segunda tentativa de delação, na Procuradoria de Justiça de São Paulo, a dupla prometeu delatar políticos estaduais e autoridades da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. Entretanto, ofereceram poucos elementos além do que já havia sido identificado pelos promotores, como, por exemplo, comprovantes bancários e mensagens. Mais uma vez, sem êxito.
Foi no Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP) de Piracicaba, onde surgiu a investigação que resultou na operação Carbono Oculto, que Mohamad e Beto Louco ganharam um pouco mais de abertura para apresentar seus relatos para uma eventual delação. Acordou-se, no entanto, uma cláusula: não haver qualquer menção ao PCC em seus relatos.
Como mostrou o Bastidor, Mohamad e Beto Louco concordaram em revelar ao menos três pontos: sua influência sobre autoridades da Agência Nacional do Petróleo, responsável pela fiscalização do setor de combustíveis; o vazamento de informações sobre a deflagração da operação Carbono Oculto; e a rede de contatos mantida com políticos em Brasília e nos estados.
Durante as negociações, um fato que abalou a delação dos empresários foi a publicação de um organograma do PCC em que Mohamad aparece como lavador de dinheiro da facção criminosa. Mas, após analisar os documentos apresentados pela defesa, os promotores do Gaeco também perceberam que a dupla não estava disposta a colaborar de verdade e desistiram.
Com isso, o caso voltou para Procuradoria-Geral de Justiça. O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, rejeitou a delação da dupla.
Procurados, os advogados de Mohamad Hussein Mourad e de Roberto Augusto Leme, o Beto Louco, não se manifestaram.

