Documentos obtidos pelo Bastidor sobre a operação Tank, da Polícia Federal, mostram como funcionava o esquema de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis no Paraná. A investigação aponta que a movimentação financeira irregular acontecia por intermédio da Tycoon, também conhecida como Zeit Bank, uma fintech suspeita de ter sido utilizada para lavagem de dinheiro que beneficiou o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A Tycoon movimentava dinheiro de duas formas: com o uso de maquininhas de cartão de crédito e com o recolhimento de dinheiro vivo com carros-forte. Os valores, então, eram depositados em contas-bolsão da Tycoon em grandes instituições financeiras para depois serem dispersados a beneficiários do esquema.

Uma das frentes analisadas pelo Ministério Público do Paraná trata do uso irregular da Tycoon como credenciadora de crédito. A fintech oferecia maquininhas de cartão de crédito para diversos estabelecimentos comerciais. Foram movimentados mais de 1 bilhão de reais pelas maquininhas, cujos valores eram centralizados em contas-bolsão da Tycoon nos bancos Itaú e Banrisul.

Como credenciadora de crédito, o dinheiro arrecadado pelas maquininhas da Tycoon deveria ser repassado aos vendedores — ou seja, aos estabelecimentos onde os cartões eram utilizados. No entanto, os valores eram destinados a contas próprias da Tycoon. De acordo com os documentos, dos 704 milhões de reais que transitaram na conta da Tycoon no Banrisul, 689 milhões de reais foram transferidos para outra conta da fintech no Itaú.

Já no Itaú, mais de 90% dos valores movimentados na conta vinham de transferências feitas pela Tycoon, após receber de outras instituições financeiras (729 milhões de reais) ou repasses de créditos provenientes das maquininhas (466 milhões de reais).

“A existência de créditos de terceiros nas contas da Tycoon, na quantidade e no volume em que foram encontrados na conta do Itaú aqui examinada, fornece indício bastante robusto de que a conta sob análise era operada como conta-bolsão”, diz um trecho do relatório da Polícia Federal.

O esquema de lavagem ligado aos postos de combustíveis mantinha ainda outra frente de atuação, do com recolhimento de dinheiro em espécie diretamente nos postos controlados pelo grupo. O dinheiro era depois depositado em contas-bolsão da Tycoon em três instituições financeiras localizadas em diferentes estados: Santander, em Curitiba; Caixa Econômica Federal, em Guarulhos (SP); e Sicoob, em Salvador.

Na agência do Santander, o grupo depositou, por meio de carros-fortes, 82 milhões de reais em espécie em uma conta-bolsão da Tycoon. Segundo o documento, o banco forneceu a lista de coletas relacionadas à Tycoon, na qual todos os clientes eram postos de combustíveis — evidência de que o Santander tinha ciência de que os depósitos se originavam de postos, e não da própria fintech. O dinheiro depositado nessa conta foi depois distribuído a postos e empresas investigadas por participação no esquema.

Na agência do Sicoob, em Salvador, em operação semelhante à do Santander, o grupo criminoso depositou, entre 2020 e 2022, cerca de 79 milhões de reais em espécie recolhidos por carros-forte. Desse montante, 68 milhões de reais foram transferidos para outras contas da Tycoon em diferentes bancos. Outros 13 milhões de reais foram direcionados à Lec Comércio de Combustíveis, de Jailson Couto Ribeiro, empresário suspeito de operar o braço baiano do esquema.

Na Caixa Econômica Federal, em Guarulhos (SP), a Tycoon mantinha duas contas que receberam movimentações superiores a 164 milhões de reais em depósitos sem identificação. A Caixa informou à PF que todos os depósitos acima de 50 mil reais foram feitos por Rafael Belon, dono da Tycoon.

A Polícia Federal, entretanto, contesta a informação. Argumenta que Belon mora em Curitiba (PR), o que torna improvável que ele tenha feito pessoalmente os depósitos na agência de Guarulhos. Do montante movimentado, 9 milhões de reais foram identificados como oriundos de carros-fortes.

Entre os beneficiários dos 164 milhões de reais movimentados na Caixa, foram identificadas transferências de 125 milhões de reais para o BK Bank, fintech investigada por lavagem de dinheiro; cerca de 26 milhões de reais para a GGX Global, empresa de Himad Abdallah Mourad ,primo de Mohamad Hussein Mourad, dono da Copape e apontado como principal líder do esquema; e aproximadamente 8 milhões de reais para a Lega Serviços Administrativos, de Armando Hussein Ali Mourad, irmão de Mohamad.

O que dizem as instituições

O Santander afirmou que mantém sistemas robustos controle, mas não que não pode entrar em detalhes sobre o caso específico.

A Caixa Econômica Federal disse que auxilia nas investigações e que informações são repassadas exclusivamente para Polícia Federal. Ainda afirmou que possui mecanismos de combate a lavagem de dinheiro.

O Sicoob afirmou que adota rigorosas políticas de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Já o Itaú informou que o compliance do banco identificou indícios de irregularidade que resultou no encerramento das contas. Clique aqui para ler as íntegras das notas.


O Bastidor entrou em contato com a assessoria do Banco Banrisul, mas não obteve retorno.

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