Trocas de mensagens entre integrantes de um grupo criminoso que vendia acesso a dados de milhões de brasileiros por meio de uma plataforma chamada I-Find indicam que a ferramenta foi usada pelo Primeiro Comando da Capital para monitorar o senador Sergio Moro, ex-juiz da operação Lava Jato e ex-ministro da Justiça.

Conversas mantidas num aplicativo de mensagens chamado “Nicegram” – desenvolvido a partir do Telegram e descobertas pela Polícia Federal – mostram que os controladores do I-Find sabiam que integrantes do PCC, a maior facção criminosa do país, usaram o módulo “Radar” da plataforma para monitorar Moro. Essa funcionalidade é alimentada por dados do sistema de radares da Polícia Rodoviária Federal e permite monitorar, em tempo real, o deslocamento de veículos. A tecnologia está integrada ao Córtex, sistema de vigilância do Ministério da Justiça, de onde eram roubados os dados usados no site ilegal.

Como revelou o Bastidor, os hackers acessaram os sistemas federais por meio de senhas de servidores públicos. Extraíram dados e cobravam pelo acesso a eles na plataforma I-Find. Havia até pacotes de assinatura. O acesso ao módulo “Radar”, no entanto, era cobrado à parte dos assinantes, com um valor por consulta. Não há informações no inquérito sobre o valor do serviço.

Na investigação, a PF afirma haver indícios de que a função “Radar” foi usada por criminosos para mapear a rotina de Moro durante o planejamento de um atentado que seria executado pelo PCC. No entanto, os documentos obtidos pelo Bastidor não especificam quem do PCC fez as consultas, nem o período em que ocorreram.

A PF destaca dois indícios iniciais do uso da plataforma para monitorar Moro. O primeiro é um áudio enviado por Karen Bianca Coitinho Lima, revendedora da I-Find, para uma pessoa não identificada. Ela menciona que o módulo “Radar” foi utilizado para localizar Moro, mas não cita o envolvimento do PCC.

O segundo é uma troca de mensagens no grupo do “Nicegram”. No diálogo, o sócio da I-Find, José Tharcísio Rodrigues de Lima — conhecido como Peche —, envia orientações para que Karen apague todos os registros do módulo “Radar” em que foram consultados informações de Moro. Ele também pede que sejam excluídos usuários que contenham a sigla ou o emblema do PCC no perfil da plataforma.

“Constatou-se que José Tharcísio, vulgo Peche, em conversa de aplicativo, demonstrou ter conhecimento de que dados sensíveis relacionados ao senador Sergio Moro foram acessados por membros do PCC na plataforma I-Find”, afirma trecho de um relatório parcial da PF.

A própria Polícia Federal estabelece conexão entre as consultas na plataforma ilegal e o plano do PCC de assassinar Moro em 2023. Em 22 de março daquele ano, a corporação deflagrou uma operação contra uma célula da facção que pretendia matar o senador e o promotor Lincoln Gakiya, a maior autoridade no combate ao PCC no Brasil.

A investigação apontou que o motivo para a execução de Moro estaria relacionado à decisão dele, quando ministro da Justiça, de transferir líderes da facção para presídios federais de segurança máxima.

Moro afirmou ao Bastidor que a PF fez “um bom trabalho” ao prender os executores do plano, mas ressaltou que ainda falta identificar os mandantes. Disse também que buscará mais informações sobre a consulta ilegal. A reportagem não conseguiu contato com as defesas de José Tharcísio e de Karen Bianca.

Em nota, o Ministério da Justiça disse que não teve acesso ao conteúdo do inquérito em virtude do sigilo. Mas disse que realiza constantes atualizações de segurança no sistema Córtex.  Clique aqui para ler a íntegra da nota.