A campanha de Ney Bello para ministro do Superior Tribunal de Justiça tem incomodado uma ala da corte, segundo ministros do STJ ouvidos sob condição de anonimato. O incômodo tem duas razões.

A primeira é a campanha que Ney tem feito contra seus adversários, destacando supostos defeitos e indicando alianças (nem sempre verdadeiras) desses concorrentes com adversários do governo Lula. A ideia é mostrar que determinada escolha do STJ pode ser preterida pelo presidente devido a resistências políticas.

A segunda é a pressão de ministros do STF que o apoiam, principalmente Flávio Dino, seu amigo de infância. Dino tem ligado e procurado pessoalmente integrantes do STJ insistentemente para garantir apoio a seu conterrâneo maranhense.

Numa dessas investidas, Dino ouviu de um ministro do STJ que não deveria apoiar quem quase lhe traiu no passado. Quando presidiu a Ajufe, Dino sofreu com Ney por não tê-lo apoiado politicamente dentro da instituição dos juízes federais.

A estratégia de Dino também inclui escolher a dedo ministros do STJ para fazer interlocução com Lula. Em troca, pede que apoiem Ney.

A Lula, Dino e esses ministros do STJ têm dito que Ney é a única via progressista na disputa. O desembargador do TRF1, porém, se adapta ao governo do momento. Na gestão Dilma Rousseff, tendeu à esquerda; no governo Bolsonaro, foi à direita.

Ney deu diversas decisões que ajudaram integrantes do governo Bolsonaro. Liberou madeira apreendida e até encerrou investigação que afetaria Paulo Guedes.

Agora, Ney tenta jogar novamente com a esquerda, para convencer Lula que tem o perfil ideal de ministro. Mas as nomeações ao Supremo mostram que o presidente tem escolhido pessoas totalmente fieis, uma lição aprendida com a Lava Jato.

Pesa ainda contra Ney o fato de ele sempre ser um dos primeiros interessados em concorrer a vagas no STJ. A disputa atual é apenas mais uma. Na anterior, em 2022, perdeu por pressão de Kassio Nunes Marques, seu inimigo declarado, e de ministros do STJ.

Esses magistrados foram até Jair Bolsonaro para dizer que Ney não seria uma boa escolha e que boa parte do STJ não o quer lá. Sugeriram que a nomeação criaria uma indisposição entre o então presidente e o tribunal.