Apesar do discurso público de preocupação com a possível vitória da extrema direita nas eleições presidenciais na Argentina, no domingo, 22, nos bastidores o governo brasileiro recebeu sinais para acalmar-se. Contatos no staff do candidato Javier Milei avisaram que o discurso eleitoral tem um tom mais alto do que será posto em prática.

A interlocução ocorreu ao longo de setembro, por meio de empresários e contatos diplomáticos. A consulta se deu em torno de temas específicos: a manutenção da Argentina no Mercosul e as regras do comércio entre os dois países.

Apontada como a provável futura ministra das Relações Exteriores da Argentina, a economista Diana Mondin foi a responsável por enviar os recados que chegaram ao governo Lula.

Nesses recados, segundo um auxiliar do petista, ela disse que seu país não pretende sair do Mercosul, mas reformá-lo — deixa de ser uma tragédia para ser um grande problema. Já sobre o comércio, prometeu ela, a relação será pragmática.

A preocupação do Brasil se justifica pela situação argentina. O país está imerso numa formidável crise econômica, que combina hiperinflação acima de 130% ao ano e escassez de reservas para pagar dívidas e importações.

Neste contexto, um dos favoritos na eleição é Milei, um economista de ultradireita, liberal radical, que fala em fechar o Banco Central argentino, dolarizar a economia e praticamente acabar com o Estado e o governo argentinos. Seu discurso é tão ou mais radical que o de Jair Bolsonaro em 2018 – Bolsonaro, aliás, o apoia.

Em uma campanha inflamada e teatral, Milei tem dito que romperá com o Brasil e com a China e que dará preferência ao comércio com os Estados Unidos e Israel. Também já disse que o Mercosul prejudica o “argentino de bem” e que precisa acabar.

Num contexto em que o Uruguai também ameaça deixar o bloco para se aliar à China, o governo brasileiro ficou preocupado sobre o futuro do acordo. Sem o Mercosul, o Brasil perde sua posição de liderança na continente e, portanto, fica mais fraco no cenário mundial.