A íntegra de inquéritos e investigações relacionados ao Banco Master, divulgada na noite de quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tem uma lacuna: falta a íntegra das apurações que colocam sob suspeita o ministro Dias Toffoli, cuja família detinha participação no resort Tayayá, e suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Os documentos foram tornados públicos depois de uma decisão do presidente da corte, ministro Edson Fachin, que, após manifestação da PGR, deu 24 horas para que Mendonça abrisse os autos ainda fechados, ressalvados os que pudessem prejudicar investigações em curso.

A decisão veio em meio à crise sob a qual o STF foi jogado, depois que Mendonça divulgou um relatório da Polícia Federal mostrando conversas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. O documento foi produzido em 72 horas por ordem de Mendonça e mostra uma o relacionamento pessoal e comercial entre o dono do Banco Master e Moraes. Porém, indica que faltam elementos para corroborar a tese de que Moraes tenha agido para favorecer Vorcaro.

A retirada apenas parcial do sigilo passou a ser criticada dentro da Corte. Uma ala do STF alega que a seleção do que se abre produz desequilíbrio e cita nominalmente o relatório sobre Toffoli como exemplo do que segue fechado. Esses ministros pressionam para que a sessão extraordinária desta terça-feira (15), na qual o plenário analisará a validade do relatório da PF e o pedido da PGR para anulá-lo, não se limite às suspeitas envolvendo Moraes.

O relatório contra Toffoli foi produzido pelos delegados da Polícia Federal Daniel Mostardeiro Cola, Guilherme Alves de Siqueira, Wedson Cajé Lopes e Victor Arruda de Oliveira, e assinado em 9 de fevereiro deste ano. Foram os mesmos quatro delegados que produziram o documento que atinge Moraes, de cerca de 218 páginas, entregue em 27 de agosto. Mas o tratamento das duas investigações foi diferente. O relatório de agosto foi requisitado por Mendonça, teve a análise aprofundada, foi encaminhado à PGR e teve o sigilo retirado. O de fevereiro, sobre Toffoli, nunca gerou diligência equivalente.

Ambos os relatórios foram produzidos a partir de informações obtidas no celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025. No caso de Moraes, o documento mostra apenas as 52 mensagens que foram enviadas pelo banqueiro ao ministro. Não há indicação de resposta e de ação tomada pelo magistrado para favorecer o dono do Master.

Já no caso de Toffoli, as mensagens mostram uma relação mais próxima. Segundo reportagem da revista Piauí, o documento de 196 páginas demonstra que Vorcaro tinha proximidade com o magistrado, a ponto de marcar encontros com ele. É possível, inclusive, ler as respostas de Toffoli, que aparenta manter tom cordial com o banqueiro. Ainda segundo a revista, a PF cruzou 17 contatos telefônicos entre os dois com as mensagens extraídas do aparelho.

O documento contra Toffoli também aponta indícios de que Vorcaro foi o responsável indireto pela compra das cotas da empresa da família do ministro no resort Tayayá, por meio do fundo Arleen. No papel, esse fundo pertencia a Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro e suspeito de ser um dos principais articuladores financeiros das fraudes envolvendo o Banco Master.

O Arleen comprou as cotas da Mardit, empresa de Toffoli e seus irmãos, por 35 milhões de reais. Depois que a operação foi encerrada, o fundo foi vendido a um amigo de Toffoli, identificado como Alberto Leite, que transferiu o dinheiro — cerca de 34 milhões de reais — para uma holding registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. A suspeita dos investigadores é de que o ministro seria o beneficiário final desse dinheiro.

O relatório mostra ainda que a relação entre Toffoli e o Arleen remonta, pelo menos, a 2019 e acontecia principalmente com a participação da advogada Roberta Rangel, então mulher do ministro. Toffoli assumiu a relatoria do caso Master no final de 2025.

Segundo os policiais, Vorcaro referia-se a Roberta Rangel como “minha advogada”. De fato, ela representou os interesses do Master em diversas oportunidades. O primeiro contrato foi firmado em parceria com o escritório do advogado Walfrido Warde, onde Rangel trabalhava.

A descoberta da possível ligação entre o Tayayá, Zettel, Vorcaro e Toffoli foi divulgada pela imprensa ainda em 2025. Em fevereiro deste ano, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entregou a Fachin um relatório que apontava a possibilidade de suspeição caso Toffoli permanecesse na relatoria. Fachin assumiu a função de relator da arguição de suspeição. Em nota, Toffoli disse que a Polícia Federal não tinha legitimidade para apresentar arguições de suspeição ao Supremo e classificou o conteúdo do relatório como “ilações”.

Em 12 de fevereiro, os ministros se reuniram de forma reservada e, por maioria, reconheceram a validade dos atos praticados por Toffoli.

A corte divulgou ainda nota de desagravo ao colega. O arquivamento formal só veio em 21 de fevereiro, por ato individual de Fachin, sob o fundamento de perda de objeto. Os ministros trataram o material como juridicamente imprestável: Flávio Dino disse que as páginas eram “um lixo jurídico” e que não adiantava discuti-las, porque a crise era política; Kassio Nunes Marques afirmou que aquilo era “um nada jurídico”. O próprio relatório pede “aprofundamento analítico” e afirma que as mensagens reunidas não bastavam, naquele momento, para conclusões definitivas. Os investigadores registram ainda que certas linhas de apuração não puderam avançar por causa das regras específicas que regem a investigação de ministros do Supremo.

Na mesma ocasião, Toffoli deixou a relatoria dos casos relacionados ao Master e, desde então, se declara impedido de atuar nos processos do banco. Porém, às vésperas de o plenário do STF se debruçar sobre o relatório que envolve Moraes — derivado do mesmo celular de Vorcaro —, Toffoli tem mantido o silêncio e não declarou ainda se irá se considerar impedido.

O Bastidor pediu um posicionamento do gabinete de Mendonça sobre a não inclusão da investigação sobre Toffoli no rol de procedimentos que perderam o sigilo. Não houve resposta até agora. À Piauí, o ministro havia afirmado que o relatório de fevereiro não lhe fora endereçado — embora, como relator do caso, pudesse ter solicitado acesso, o que não fez, nem quanto a Toffoli nem quanto aos demais ministros citados.

Toffoli também foi questionado sobre o relacionamento com Vorcaro e igualmente não houve resposta. Em manifestações anteriores, porém, o ministro já havia tratado do assunto. Em nota enviada à Piaui, seu gabinete afirmou que ele jamais teve relação de amizade — “e muito menos amizade íntima” — com o banqueiro, e negou ter recebido qualquer valor dele ou de Zettel. Sobre o evento de Londres, disse que participou a convite de Alexandre de Moraes. Em fevereiro, já havia admitido ter sido sócio de empresa ligada ao Tayayá, negando relação pessoal ou financeira com Vorcaro; a família sustentou que as operações foram regularmente declaradas ao Fisco.