O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio à crise financeira causada pela quebra do Ueno Bank, um dos principais bancos digitais do país, com 2,9 milhões de clientes. A decisão ocorreu após a perda de apoio político no Congresso. Peña foi acionista da Ueno Holding, grupo empresarial ligado ao banco, até março de 2025.

O anúncio foi feito em vídeo publicado nas redes sociais. Peña afirmou que decidiu deixar o cargo para preservar a estabilidade do país e pediu desculpas à população. “Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai”, disse. Ele afirmou ainda que sua prioridade é garantir a devolução dos recursos aos clientes atingidos pela crise.

Mesmo após o anúncio da renúncia, a Câmara dos Deputados aprovou, por 78 votos a zero, a abertura de um processo de impeachment contra Peña. O pedido, apresentado inicialmente por 35 parlamentares, acusa o presidente de conflito de interesses por sua antiga participação no Ueno e pela destinação de recursos públicos ao banco. A proposta seguiu ao Senado, responsável pelo julgamento. A renúncia ainda depende de aceitação pelo Congresso. O vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o governo até agosto de 2028.

A crise também atingiu o Banco Central paraguaio. Seu presidente, Carlos Carvallo, renunciou na terça-feira (3), depois que sua atuação foi questionada por vínculos anteriores com o Ueno. Outros dois diretores também deixaram seus cargos, fazendo o órgão perder temporariamente o quórum necessário para tomar decisões. A situação foi regularizada na quarta-feira (4), com a nomeação de Pedro Acosta Bernal, que assumiu interinamente a presidência.

Na terça-feira, o Banco Central iniciou o procedimento de resolução do Ueno após identificar empréstimos suspeitos a empresas ligadas aos controladores e falhas na documentação das operações. O índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo legal. A crise levou à prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes. Na quarta, o Ministério Público apresentou acusações contra 27 pessoas por suspeitas de crimes financeiros, incluindo lesão de confiança, tentativa de estelionato e irregularidades contábeis.

A crise ocorre num momento de crescente interesse de brasileiros pelo Paraguai, atraídos por incentivos fiscais e custos operacionais menores. Somente no primeiro semestre de 2026, o país concedeu 22.628 autorizações de residência a brasileiros, segundo dados oficiais. O Ueno oferecia contas a estrangeiros com documentação paraguaia, mas não há informações sobre quantos brasileiros mantinham recursos na instituição.