Quatorze anos após comprar o Banco PanAmericano de Silvio Santos, o BTG Pactual, de André Esteves, se prepara para adquirir a totalidade das ações da instituição, hoje Banco Pan. A operação prevê retirar os papéis do Pan da B3 e transformá-lo numa subsidiária indireta do BTG.

O banco de Esteves controla 78,3% do capital do Pan. Os 21,7% restantes estão em circulação na B3. Pela proposta, os acionistas minoritários receberão ações do próprio BTG em troca de seus papéis, sem pagamento em dinheiro.

A oferta estabelece a entrega de 0,2128 unit do BTG para cada ação do Pan. Como os minoritários possuem 271.177 ações do Pan, receberão cerca de 57.706 units do BTG. Considerando o valor de 42,25 reais por unit em 30 de junho, data-base da projeção, as notas explicativas da operação estimam que o BTG terá um custo econômico de 2,44 bilhões de reais.

O BTG classifica a operação, anunciada em outubro, como uma reestruturação societária para simplificar sua organização e eliminar custos redundantes. Após a transação, o Banco Sistema, uma subsidiária do BTG, passará a deter 100% do Pan, que se tornará uma subsidiária indireta.

A conclusão do negócio ainda depende de aprovação nas assembleias de acionistas das duas instituições, agendadas para 9 de dezembro.

Nos tempos de Sílvio Santos

A incorporação do Pan ao conglomerado do BTG encerra uma história iniciada em 2010, quando o Banco Central identificou uma fraude bilionária no então PanAmericano, do grupo Silvio Santos.

O escândalo expôs fraudes contábeis e falhas de governança. O banco vendia carteiras de crédito, mas continuava registrando esses ativos como próprios, inflando seus resultados. Os ganhos eram lançados como lucro – até mesmo com pagamento de tributos – para manter uma aparência de normalidade perante reguladores e investidores.

O rombo inicial, estimado em 2,5 bilhões de reais e posteriormente ajustado para cerca de 4 bilhões de reais, levou o Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, a conceder quase 4 bilhões de reais em empréstimos emergenciais. Na ocasião, Silvio Santos ofereceu seu patrimônio como garantia para evitar a quebra da instituição.

Em janeiro de 2011, o PanAmericano foi vendido ao BTG por 450 milhões de reais. O BTG assumiu o controle com 51% das ações ordinárias e 37,64% do capital total, enquanto a Caixa manteve participação relevante.

Pelo acordo firmado entre Caixa, PanAmericano e BTG, o banco público se comprometeu a adquirir créditos do Pan por até 8 bilhões de reais e a reforçar sua liquidez com depósitos interfinanceiros de até 2 bilhões de reais– medidas essenciais para manter o banco em operação naquele momento.

Assim, o BTG assumiu o Pan já com o rombo reconhecido, a instituição recapitalizada e um passivo de longo prazo com o FGC.

A compra do Pan representou para o BTG uma entrada rápida e de baixo custo no varejo de massa. Para um banco voltado ao atacado e à alta renda, o movimento permitiu diversificar receitas, além de consolidar uma plataforma de varejo voltada às classes C e D, separada da marca BTG.

Em 2013, o PanAmericano adotou o nome Banco Pan. Em 2017, iniciou a transição para banco digital e reposicionou sua marca. Em 2021, o BTG comprou a fatia da Caixa, concentrando a maior parte do capital do Pan.

Hoje, o Pan atua como banco digital e de varejo de massa, com foco em crédito consignado, veículos, cartões e conta digital. Com a reorganização em curso, a tendência é que se torne ainda mais integrado ao grupo como subsidiária operacional, embora mantenha marca própria voltada ao público popular.

No terceiro trimestre deste ano, o Pan registrou lucro líquido de 209 milhões de reais e uma carteira de crédito de 61,5 bilhões de reais, concentrada principalmente em financiamento de veículos (59,4%). O banco tem 35,2 milhões de correntistas.

Condenados

Em 2012, o Ministério Público Federal denunciou catorze ex-diretores e três ex-funcionários do banco por crimes contra o sistema financeiro. Em 2018, a 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo condenou sete ex-diretores por gestão fraudulenta e outras irregularidades. O caso ainda tramita sob segredo de Justiça no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3).

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