Principal distribuidora de energia do Rio de Janeiro, a Light informou na noite de quarta-feira (9) que sua recuperação judicial chegou ao fim. Na decisão que encerrou o processo, a Justiça do Rio afirma que a companhia cumpriu todas as obrigações do plano que venceram durante os dois anos de supervisão judicial, entre junho de 2024 e junho deste ano.
A crise que levou a Light à Justiça se aprofundou em 2023. Em maio daquele ano, a holding entrou com o pedido de recuperação alegando dívidas de cerca de 11 bilhões de reais, concentradas principalmente em debêntures e títulos emitidos no exterior. Um mês antes, a companhia já havia conseguido suspender temporariamente a cobrança de 11,1 bilhões de reais em obrigações para tentar negociar com os credores.
No centro do problema estava a distribuidora Light Sesa. A empresa sofria com elevados índices de furto de energia e inadimplência, especialmente em áreas onde tinha dificuldades para operar devido à presença do crime organizado. A devolução de créditos tributários aos consumidores e a incerteza sobre a renovação da concessão, que venceria em 2026, também pressionavam o caixa e dificultavam a rolagem das dívidas.
Foi nesse cenário que o empresário Nelson Tanure se aproximou da companhia. Em 4 de maio de 2023, oito dias antes do pedido de recuperação, fundos administrados pela WNT passaram a deter 10,02% da Light. A gestora era associada pelo mercado aos interesses do empresário, conhecido por investir em companhias em dificuldades e tentar capturar a valorização depois de uma reestruturação.
A relação era indireta. Tanure não aparecia como dono direto da participação da WNT, que sustentava tomar suas próprias decisões de investimento. O empresário, no entanto, logo passou a atuar diretamente na companhia. Em julho de 2023, quando os fundos da gestora já concentravam cerca de 30% da Light, Tanure foi eleito para o conselho de administração numa chapa indicada pela WNT e aprovada por quase 90% dos votos.
A partir daí, Tanure tornou-se um dos agentes mais influentes na Light durante a recuperação. No dia da eleição para o conselho, Tanure afirmou que participaria pessoalmente das negociações com os credores e disse que o BR Partners seria contratado para buscar uma solução com bancos, debenturistas e outros financiadores.
A participação dos fundos geridos pela WNT continuou crescendo e chegou a 35,03% em fevereiro de 2024. Naquele momento, Tanure já era tratado pela Light como um de seus acionistas de referência, ao lado de Ronaldo Cezar Coelho e Carlos Alberto Sicupira.
Os três tiveram papel importante no acordo que destravou a recuperação judicial. O plano aprovado pelos credores previa uma capitalização de até 1,5 bilhão de reais, dos quais 1 bilhão seria ancorado pelos três acionistas de referência. O restante da reestruturação envolvia, entre outras medidas, conversão de parte dos créditos em ações e pagamento integral aos credores com valores de até 30 mil reais.
Em maio de 2024, mais de 99% dos credores presentes aprovaram o plano. A Justiça o homologou no mês seguinte. A Light conseguia, assim, equacionar a dívida que um ano antes colocava em dúvida até sua capacidade de manter a concessão.
Tanure, porém, começou a perder espaço na companhia em 2025. Em maio, a WNT reduziu sua participação de 35% para pouco mais de 30%. Dois meses depois, a fatia havia caído para 18,94%. Ronaldo Cezar Coelho voltou a ocupar a posição de maior acionista da Light.
A pressão sobre Tanure aumentou no início deste ano. Em janeiro, ele foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal na segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes relacionadas ao Banco Master. A PF apontou indícios de que Tanure atuou como sócio oculto da instituição. A defesa do empresário nega qualquer relação societária com o Master e afirma que ele foi apenas cliente do banco. Seus bens também foram bloqueados por decisão do Supremo Tribunal Federal.
No mês seguinte, o problema passou diretamente pela Light. Credores que haviam financiado Tanure na compra da Ligga Telecom executaram garantias dadas pelo empresário e tomaram parte das ações que ele mantinha da distribuidora. Antes da execução, veículos associados a ele detinham 18,94% da Light. O fundo Opus ficou com uma participação de 9,9% e informou que pretendia vender os papéis.
Em 18 de março, Tanure deixou o conselho de administração da Light. Na carta de renúncia, afirmou que sua contribuição para a companhia “já atingiu seu ápice” e que era o momento de encerrar seu trabalho no grupo. Também começou a preparar sua saída definitiva do investimento.
Participantes do mercado veem uma ironia na passagem de Tanure pela Light: o investidor especializado em ativos problemáticos entrou na companhia quando ela estava desvalorizada e sem crédito, mas precisou sair quando passou a ser pressionado pelos próprios credores.
Tanure deixou a companhia antes de dois marcos que consolidaram sua recuperação. Em abril, o Tribunal de Contas da União deu aval ao processo de prorrogação da concessão de distribuição por mais 30 anos. Em 8 de maio, o Ministério de Minas e Energia assinou o novo contrato, com vigência até 2056. A renovação era fundamental para a Light: a incerteza sobre o futuro da concessão havia sido um dos fatores que dificultaram o refinanciamento da empresa em 2023.
Agora, a companhia encerra também a recuperação judicial. Na sentença, o juiz Leonardo de Castro Gomes, da 3ª Vara Empresarial do Rio, afirmou que a Light honrou as obrigações previstas no plano que venceram durante os dois anos de fiscalização. A administração judicial constatou, entre outras medidas, o pagamento de mais de 27 mil credores com créditos de até 30 mil reais, a emissão dos novos instrumentos de dívida, a reestruturação dos títulos emitidos no exterior e a realização dos aumentos de capital previstos no plano.
O fim do processo, porém, não significa que todas as obrigações da recuperação tenham sido extintas. A decisão registra que ainda existem compromissos com vencimento futuro ou de execução continuada. O juiz considerou que manter a Light em recuperação depois do período legal de fiscalização apenas aumentaria os custos do processo e dificultaria a recuperação de crédito.
Caso a companhia deixe de cumprir alguma das obrigações remanescentes, os credores ainda poderão cobrar judicialmente seus créditos e até pedir a falência da Light.