Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Raízen desde 2011, perderá o cargo e só permanecerá nos conselhos das duas empresas em que o grupo será dividido se a Aguassanta, holding ligada à sua família, aportar 500 milhões de reais. A condição foi aprovada em assembleias realizadas na sexta-feira (30), como parte da recuperação extrajudicial da companhia, que passará a ter os credores no comando dos colegiados.
A mudança encerra uma disputa que se arrasta desde o início das negociações da dívida. Como mostrou o Bastidor em abril, Ometto resistia à pressão para deixar a presidência do conselho, uma das principais exigências dos credores. Em junho, após quase três meses de negociações, a Raízen fechou um acordo que previa a entrega da maioria dos assentos aos bancos e investidores. As assembleias de outubro formalizaram essa mudança.
Os credores indicarão quatro dos sete integrantes de cada conselho, incluindo os presidentes. A Shell terá duas cadeiras garantidas em cada um. A sétima ficará com Ometto caso a Aguassanta subscreva e integralize 500 milhões de reais em ações da Raízen. Sem o investimento, a vaga será ocupada por Roland Alexander Ilube, indicado pela Shell. Mesmo com o aporte, Ometto terá uma participação minoritária nos colegiados.
A Raízen é uma joint venture da Shell com a Cosan, controlada por Ometto. Porém, a Cosan não participará dos novos aportes e terá sua fatia na companhia diluída. Assim, o empresário indicou que eventuais aportes serão realizados pela Aguassanta.
Para presidir o conselho da futura distribuidora de combustíveis, os credores escolheram Samuel Aguirre. Na Raízen Energia, responsável pelos negócios de etanol, açúcar e bioenergia, o indicado foi Julio Cesar de Toledo Piza Neto. A substituição dos atuais administradores dependerá da homologação do aumento de capital, prevista para ocorrer até 18 de dezembro. Até lá, Ometto permanece na presidência.
A reorganização faz parte do plano de recuperação extrajudicial homologado pela Justiça de São Paulo em julho, que envolve a renegociação de 61,4 bilhões de reais em dívidas financeiras. A medida ganhou força após a Raízen encerrar o ano-safra 2025/26 com prejuízo de 27,1 bilhões de reais e patrimônio líquido negativo de 8,3 bilhões. A deterioração financeira ampliou a pressão dos credores por mudanças na administração e por novos aportes dos controladores.
Para viabilizar a recuperação, os acionistas aprovaram um aumento de capital de até 39,8 bilhões de reais. A Shell prevê investir até 3,5 bilhões de reais, enquanto a Aguassanta poderá acrescentar 500 milhões. O restante da operação envolve principalmente a conversão de dívidas em ações e a participação de outros acionistas. Assim, o valor máximo anunciado não representa uma entrada equivalente de dinheiro no caixa da companhia.
A reestruturação também prevê a separação dos negócios. A Raízen S.A. ficará com a distribuição de combustíveis e lubrificantes da marca Shell, enquanto a Raízen Energia concentrará a produção e comercialização de etanol, açúcar e bioenergia. Para executar a divisão, os acionistas autorizaram uma redução de capital de até 35 bilhões de reais, mediante a entrega de valores mobiliários da Raízen Energia. O grupo também prepara um processo competitivo para avaliar a entrada de investidores no negócio de distribuição.
Os credores terão até 3 de dezembro para escolher entre três alternativas de pagamento. A principal prevê a troca de 55% dos créditos por novos títulos de dívida e de 45% por ações, considerando os valores de emissão. Outra estabelece desconto de 80%, com pagamento do saldo em março de 2047, e será aplicada, como regra, a quem não fizer uma escolha válida. Há ainda uma modalidade para pagamentos menores, limitados a 75% do crédito ou 9.750 reais, dentro de um orçamento de 150 milhões de reais.
A conclusão da reestruturação ainda depende do cumprimento das condições previstas no plano. A Raízen avançou nesse processo ao obter, em outubro, um desconto de 8,5 bilhões de reais em multas e juros de dívidas tributárias, em acordo separado com a União.
Na terça-feira (3), a companhia também passou a negociar suas ações preferenciais sob o código RAIZ55, em substituição a RAIZ4. Segundo a Raízen, a alteração muda a forma de cotação dos papéis, mas não modifica a quantidade de ações detidas pelos investidores nem seus direitos.