A vitória do presidente Lula sobre Flávio Bolsonaro provoca uma sangria no mercado financeiro nesta segunda-feira (26). A Bolsa brasileira chegou a despencar 16,88%, aos 170.461 pontos, enquanto o dólar disparou mais de 12%, para 5,60 reais, e os juros futuros saltaram.

A pressão foi tamanha, que a B3 acionou o circuit breaker ainda na abertura do pregão, interrompendo as negociações por 30 minutos após uma queda de 10% do Ibovespa. Foi a primeira vez que o mecanismo foi acionado desde março de 2020, durante a pandemia da covid-19.

A dimensão do tombo não se explica apenas pela desconfiança dos investidores sobre o quarto mandato de Lula. O mercado havia comprado a tese de que Flávio venceria a eleição e promoveria um ajuste fiscal de 250 bilhões de reais, capaz de conter o crescimento da dívida pública. A versão fiscalista prevaleceu, a despeito de diversas promessas de Flávio que sinalizavam ampliação dos gastos, como a manutenção da política de valorização do salário mínimo, gastos com o Bolsa Família e a recompra de dívidas de cidadãos pela Caixa.

A aposta impulsionou a Bolsa e derrubou os juros nas últimas semanas. Na sexta-feira (23), o Ibovespa fechou acima dos 205 mil pontos, enquanto o dólar recuou para 4,99 reais. Com a derrota do senador, investidores passaram a desmontar às pressas as posições construídas sob essa expectativa.

O otimismo ganhou força depois do primeiro turno, quando Bolsonaro surpreendeu ao superar Lula por 47,03% a 45,16% dos votos válidos. O favoritismo de Bolsonaro se consolidou nas pesquisas e nas projeções políticas.

A consultoria de risco Eurasia chegou a atribuir 80% de probabilidade à vitória de Flávio. Mesmo após reduzir a estimativa para 60%, na sexta (23), a consultoria ainda trabalhava com um cenário favorável ao senador. Lula, porém, reverteu a desvantagem e venceu com 51,79% dos votos, contra 48,21%.

O resultado obrigou o mercado a rever suas projeções para a economia. Em relatório divulgado nesta segunda, o BTG Pactual estima que o Ibovespa possa perder 17% nas próximas semanas, chegando à região dos 170 mil pontos, enquanto o real pode se desvalorizar entre 10% e 15%. O banco também prevê que os juros reais de longo prazo, que haviam recuado 0,81 ponto percentual nos últimos 30 dias, voltem a superar 8% ao ano, dificultando novos cortes da Selic. O Safra trabalha com um cenário mais conservador, no qual a Bolsa pode oscilar entre 160 mil e 180 mil pontos.

O principal temor é a trajetória das contas públicas. Investidores apostavam que um governo Flávio adotaria medidas para ao menos estabilizar a relação entre dívida e PIB. Com Lula reeleito, cresceram as dúvidas sobre a disposição do governo de conter os gastos. A alta dos juros levou o Tesouro Nacional a cancelar os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para esta semana, evitando novas emissões em meio à disparada das taxas.

A intensidade da crise dependerá agora dos sinais de Lula sobre a condução da economia. A escolha da equipe econômica e as primeiras medidas fiscais serão decisivas para determinar a duração da turbulência. Por enquanto, o mercado desfaz em poucas horas uma aposta construída ao longo de semanas: a de que Flávio venceria a eleição e mudaria os rumos das contas públicas.