A Polícia Federal investiga o vazamento de credenciais de acesso ao programa de inteligência Córtex, administrado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, na darkweb, a parte obscura da internet onde ocorrem atividades ilegais. Essas credenciais são usadas por criminosos para operar sites clandestinos de consulta e venda de dados.
O Córtex é um sistema de vigilância que acumula dados pessoais de todos os brasileiros e permite o monitoramento de radares em estradas. Devido aos constantes vazamentos, o Ministério da Justiça fará uma paralisação do Córtex em janeiro, para recadastrar os órgãos participantes.
Como mostrou o Bastidor, o Córtex se tornou fonte fácil para o comércio de dados sigilosos. Uma das plataformas que vendia acesso a dados do sistema era o I-Find, alvo de uma operação da Polícia Federal no ano passado. Uma quadrilha faturou milhões de reais com a venda de planos de até 45 reais mensais a quem quisesse acesso a dados de milhões de cidadãos no Córtex. A investigação da PF encontrou indícios de que integrantes do PCC utilizaram dados obtidos no site para monitorar o senador Sergio Moro (União Brasil–PR).
Segundo pessoas a par das investigações sobre o vazamento para a darkweb, dois mecanismos de roubo de dados do Córtex e de outras plataformas do governo federal estão sendo apurados. O primeiro, que foi utilizado pelo I-Find, consiste em uma obter credencial — por meio de um código de programação — e vincular o site clandestino ao Córtex, permitindo assim que os usuários ilegais consultem dados pessoais de grande parte da população diretamente do banco de dados do governo.
O segundo mecanismo investigado envolve a extração e a venda de gigabytes de dados contendo milhões de informações pessoais, que alimentam outros sites clandestinos. Esse mercado evoluiu e passou a atuar também em grupos no Telegram, que oferecem consultas automatizadas por meio de robôs.
Uma fonte ligada às investigações afirmou que é comum encontrar credenciais de sistemas do governo federal sendo vazadas em fóruns da darkweb e da deepweb, que estão fora dos sistemas usuais de busca. A PF investiga se esses vazamentos são culpa de servidores públicos ou de falhas nos mecanismos de proteção. Um setor de cibersegurança do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) auxilia na fiscalização dos vazamentos.
O Córtex é administrado pelo governo federal, mas os estados recebem autorização para criar contas no sistema e distribuí-las aos policiais que utilizam a ferramenta. Embora o Ministério da Justiça realize auditorias frequentes, a fiscalização do uso e da proteção das credenciais é responsabilidade das corporações estaduais.
Recentemente, uma auditoria do Ministério da Justiça identificou que cerca de 9 milhões de CPFs foram consultados no Córtex por meio de uma conta cedida ao governo do Rio de Janeiro. A PF abriu inquérito para apurar o caso. A informação foi revelada pela Folha de S. Paulo.
Em nota, o Ministério da Justiça informou que fará a paralisação do Córtex para recadastrar os órgãos participantes e que indícios de uso irregular foram encaminhados à PF. Clique aqui para ler a íntegra da nota.
Para receber nossas notícias, clique aqui e acesse o canal do Bastidor no WhatsApp.