A Polícia Civil de São Paulo investiga a possível participação dos irmãos Rodrigo Antônio Bernardes de Freitas e Guilherme Bernardes de Freitas no fornecimento da infraestrutura financeira, por meio de fintechs, para o maior roubo ao sistema financeiro do país. Os dois são criadores da Soffy Soluções de Pagamentos e da BMB Pagamentos – que, juntas, receberam 368 milhões de reais, quase metade dos 813 milhões de reais roubados.
Para as investigações, o negócio dos irmãos é claro: criar e vender fintechs por meio da modalidade Pix indireto e comercializar painéis bancários para quem quiser comprar — até criminosos. Um painel bancário, que permite criar e excluir contas e chaves Pix, foi utilizado no roubo. Segundo as apurações da PF, a plataforma era operada por Gustavo Morais de Souza, chamado de Gustavo da Soffy, que participou do núcleo do golpe de Goiânia e está preso.
A polícia tenta esclarecer se Soffy e BMB atuaram por colaboração ou consentimento dos donos. A Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos, da Polícia Civil de São Paulo, apura se Rodrigo ou Guilherme receberam dinheiro para facilitar a lavagem do dinheiro em suas fintechs obtido no ataque à C&M Software.
Essa linha investigativa é reforçada por mensagens interceptadas pela Polícia Federal na operação Magnas Fraus que sugerem a participação no roubo do “dono da Soffy”, ainda não identificado, que pode ter recebido 23% de comissão pelo serviço.

Como mostrou o Bastidor, a Soffy foi essencial para dispersão do dinheiro roubado. A quadrilha tinha acesso ao painel bancário interno da fintech, o que permitia aos golpistas criar e excluir chaves Pix livremente. Circularam cerca de 362 milhões de reais roubados pelas contas da empresa.
A BMB Pagamentos recebeu 6 milhões de reais do roubo, movimentados em duas contas: Global Cobranças e Serviços, que recebeu 2,5 milhões de reais, e a Lechaim Cobranças e Assessoria, 3,5 milhões de reais. Ambas estão registradas em nome de Rayanne Christine Ribeiro Corrêa, apontada como laranja e ex-sócia de outros negócios abertos por Rodrigo e Guilherme.
Uma antiga empresa de Rodrigo, chamada de BMB Soluções, foi vendida no fim de 2024 para Maurício Nunes Ribeiro, que mudou o nome para BX Soluções de Pagamento. Ele é irmão de Márcio Nunes Ribeiro, empresário do ramo de criptomoedas que mora nos Estados Unidos.
A proximidade comercial dos irmãos Rodrigo e Guilherme com os irmãos Nunes Ribeiro é mostrada também a partir do registro do domínio do site BMB Infra (fora do ar), usado pela fintech. O endereço de internet está registrado no nome da empresa DSH Holding, de Thais Coutinho Milan Sartori, esposa de Márcio. Essa relação é alvo de outro inquérito na Polícia Civil paulista, que apura se Márcio é sócio oculto da BMB Pagamentos.
O inquérito da Polícia Civil, obtido pelo Bastidor, revela que as duas fintechs eram suspeitas há tempo. Há registros de boletins de ocorrência e mais de duas mil reclamações na plataforma ReclameAqui contra Soffy e BMB. As acusações são que contas abertas nas fintechs foram usadas para receber valores desviados de fraudes.
Meses antes do golpe, já com reclamações e boletins de ocorrência, Guilherme e Rodrigo tentaram vender metade da Soffy a um grupo de investidores paulistas por 5 milhões de reais, com entrada de 350 mil. O negócio, porém, não avançou e os investidores exigiram o dinheiro de volta. Durante essa discussão, colocaram a empresa em nome Stevan Paz Bastos, seu atual dono e ex-cozinheiro, que afirma não ter pago nada a eles. Nas investigações, Bastos é tratado como um laranja do esquema e acusa os irmãos de vender a Soffy duas vezes.
Rodrigo e Guilherme negam participação no roubo. Disseram ao Bastidor que foram devolvidos cerca 4,6 milhões do dinheiro roubado e as duas contas foram suspensas. Negaram ter qualquer relação comercial com Márcio e que fizeram negócios só com Maurício, seu irmão. A reportagem não conseguiu contato com os outros envolvidos.
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