O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quinta-feira (16) a reabertura do inquérito sobre a suspeita de interferência do então presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal. O pedido havia sido feito ontem pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O inquérito começou em 2020, a partir de acusações feitas por Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, de que Bolsonaro tentava interferir na PF para proteger filhos e amigos de investigações. As acusações de Moro geraram o inquérito inicial, aberto e encerrado a pedido da Procuradoria-Geral da República dois anos depois.

Na ocasião, a PGR era chefiada por Augusto Aras, considerado aliado de Bolsonaro. No ano passado, Alexandre de Moraes questionou o procurador-geral Paulo Gonet sobre o arquivamento. Agora, a pedido de Gonet, Moraes reabre o inquérito.

As investigações feitas pela Polícia Federal sobre o uso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em favor de Bolsonaro, no caso que ficou conhecido como “Abin paralela”, revelaram que uma estrutura semelhante funcionou dentro da própria corporação para tentar influenciar as eleições de 2022 e beneficiar Bolsonaro, como mostrou o Bastidor.

A investigação sobre a Abin, concluída este ano, descobriu a existência de dois inquéritos suspeitos na Diretoria de Inteligência Policial (DIP) da Polícia Federal, que alimentavam o discurso bolsonarista. Revelou uma viagem considerada suspeita de delegados da área de inteligência de Brasília a São Paulo, em data próxima à execução do plano Punhal Verde e Amarelo, orquestrado por militares hoje julgados na trama golpista.

As suspeitas se concentram na atuação de três delegados federais: Kel Lúcio, ex-coordenador-geral de Inteligência; Ricardo Ruiz, ex-chefe da Divisão de Contrainteligência; e Alessandro Moretti, ex-diretor de Inteligência e ex-diretor-adjunto da Abin.

No final de 2022, Moretti chefiava a DIP, onde foram abertos os dois inquéritos considerados suspeitos. A finalidade de um era apurar a delação do ex-general venezuelano Hugo Carvajal, que acusava o PT de ligação com o tráfico de drogas. O responsável era o delegado Kel Lúcio.

O outro, a cargo do delegado Ricardo Ruiz, investigava suspeitas de vínculos de advogados de Adélio Bispo, preso por tentar matar Jair Bolsonaro com uma facada em 2018, com o PCC. Naquele período, esses temas eram explorados para reforçar o discurso bolsonarista de perseguição política e fraude nas urnas.

O material coletado na investigação da Abin reforça as acusações feitas em 2020 por Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, de que Bolsonaro tentava interferir na PF. Na ocasião, Moro disse que Bolsonaro interferiu na PF para proteger os filhos de investigações. As acusações de Moro geraram o inquérito inicial, aberto a pedido da PGR. que foi Para apurar a reclamação de Moro foi aberto um inquérito conduzido pelo delegado Felipe Alcantara. Mas Alcantara foi afastado por determinação do ministro Alexandre de Moraes por solicitar informações sem relação direta com o caso.

Segundo pessoas próximas à apuração, outro episódio que poderá ser revisitado é a saída do delegado Franco Perazzoni, que investigava uma suspeita de favorecimento ilegal a madeireiros pelo ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

Fontes ouvidas pelo Bastidor e com conhecimento do caso avaliam que, se Moraes autorizar a reabertura do inquérito, ele próprio deverá designar o delegado responsável pela investigação, a fim de evitar possíveis conflitos de interesse.

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