O esquema de venda do painel de dados chamado I-Find, mantido a partir de dados roubados de pelo menos dois sistemas do governo federal, movimentou mais de 10,5 milhões de reais em três anos, com a comercialização de planos que iam de 20 reais diários a 45 reais mensais. A informação está em um relatório sigiloso da Polícia Federal obtido pelo Bastidor.
Além das invasões aos sistemas do Ministério da Justiça e da Saúde, a PF encontrou indícios de lavagem de dinheiro por parte de integrantes do grupo, como movimentações financeiras incompatíveis com a renda dos envolvidos e fragmentação dos valores obtidos com o esquema.
Os 10 milhões de reais se referem ao período de 2020 a 2023. Os valores passaram pelas contas bancárias de pelo menos cinco investigados por participação no esquema: Pedro Maria Torres Palmeira (Revuan), líder do grupo; Nykolle Sanmalla Soares Mendes, tesoureira; Domine Santos da Silva, Karen Bianca Coitinho Lima e Marcos Vinícius, revendedores da plataforma I-Find.
Segundo a PF, o grupo criminoso tinha uma estrutura financeira organizada, dividida entre tesoureiros, revendedores e responsáveis pelo suporte técnico. A principal operadora financeira do grupo era Nykolle Sanmalla, chamada pelo codinome NYK. Ela movimentou 7 milhões de reais entre 2020 e 2023.
A maioria das transferências feitas por Nukolle foram para contas dos donos da plataforma, Pedro e José Tharcísio (Perche), que receberam, respectivamente, 1,6 milhão de reais e 1,7 milhão de reais cada – valores que, segundo a PF, indicam um controle financeiro dos dois sobre Nykolle.
Em 2022, Pedro Palmeira movimentou 407 mil de reais e, em 2023, 1,1 milhão de reais em suas contas bancárias. São valores incompatíveis com a renda oficial de alguém que, no mesmo período, recebeu 64 mil reais da empresa de tecnologia ADTSYS, onde trabalhava.
Domine Santos da Silva é apontado pela PF como revendedor do I-Find e também atuava no suporte da plataforma. No grupo de venda no Telegram, ele aparece com o nome de “Cris”. Domine movimentou 397 mil reais entre 2020 e 2023, valor considerado suspeito, pois ele não possui nenhum trabalho ou atividade legal registrada. À PF, Domine disse que trabalha com e-commerce e recebe 3.000 reais mensais.
Ainda em depoimento à PF, após a deflagração da operação no início de 2024, Domine disse que foi contratado por Pedro para atuar no suporte técnico da I-Find. Afirmou que o próprio Pedro lhe dissera que o negócio era “50% legalizado e 50% não, pois a venda de dados era legal, mas a fonte desses dados era ilegal”.
A revendedora Karen Bianca Coitinho Lima movimentou 178 mil reais no período investigado pela PF. Como Karen não possuía uma ocupação profissional conhecida, a PF suspeita que o valor seja proveniente da venda de acessos ao painel I-Find. Em conversas descobertas durante a investigação no aplicativo Nicegram, ela demonstrou ter conhecimento de que o Primeiro Comando da Capital (PCC) usou a plataforma para monitorar o senador Sergio Moro (União Brasil-PR).
O revendedor Marcos Vinícius dos Santos Isaías recebeu 27 mil reais de Nykolle. A chave Pix de sua empresa, a Ensino Tech+ Profissionalizante, aparece indicada para o recebimento de pagamentos dos planos de assinatura da I-Find.
Os investigadores suspeitam que a empresa, aberta em 2023, tenha sido criada por Marcos para lavagem de dinheiro proveniente da venda dos dados. Ele não possui ocupação de trabalho formal nem histórico empresarial.
O Bastidor tenta contato com as defesas dos revendedores.

