Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam diálogos de executivos do banco que indicam que o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o vice, ACM Neto, articulava aplicações de institutos de previdência estaduais no Banco Master em troca de pagamentos.
O conteúdo das mensagens foi revelado nesta sexta-feira (16) pelo Uol. De acordo com o portal, em sua proposta de delação premiada rejeitada pela Polícia Federal, Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmou que Rueda e ACM Neto acertaram com o banco comissões de 10% sobre os valores aplicados pelos fundos de pensão. Segundo o UOL, o Master transferiu 6,4 milhões de reais a escritórios de advocacia ligados a Rueda e 5,4 milhões de reais a uma empresa de consultoria de ACM Neto pelos serviços.
A mensagem mais antiga citada é de novembro de 2023. Nela, o então diretor comercial do Master, Fernando Mascarenhas, relatou a Vorcaro que Rueda havia organizado uma viagem com escalas em Rondônia e no Amazonas. Mascarenhas escreveu que o negócio seria “gigante” e que “nosso amigo” poderia viabilizar 1,2 bilhão de reais em aplicações no banco até o fim daquele ano.
As conversas tratam também da Amapá Previdência, a Amprev. Em julho de 2024, o então tesoureiro do banco, Alberto Felix, relatou a Vorcaro que Rueda iria “segurar as operações” com a Amprev. No mesmo dia, Rueda apagou dez mensagens consecutivas da conversa com o banqueiro e escreveu: “Apaga essas mensagens”. Pouco depois, Mascarenhas informou a aprovação de mais 200 milhões de reais. Em agosto de 2024, a tesouraria do Master registrou um pagamento identificado como “comissão Amapá”. Até então, a Amprev havia transferido 300 milhões de reais ao banco.
Como revelou o Bastidor em fevereiro, em julho de 2024 a Amprev aplicou 400 milhões de reais no Master. A decisão da diretoria contrariou pareceres da área técnica. Jocildo Silva Lemos, então diretor-presidente da Amprev, estava no cargo por indicação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre
As mensagens registram contatos diretos entre Vorcaro e ACM Neto. Em setembro de 2024, ACM Neto e Rueda estiveram com o banqueiro em Trancoso, na Bahia. Em outra mensagem, ACM Neto escreveu a Vorcaro que “as coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos na política”, sem indicar a que decisão se referia.
Na proposta de delação, de acordo com o UOL, Vorcaro relata ainda repasses de dinheiro em espécie a ACM Neto referentes a uma comissão de 10% m negócios com o BRB. Segundo o relato, o BRB comprou depois cerca de 6 bilhões de reais em carteiras do Master. Os trechos divulgados não indicam entrega de valores nem descrevem a atuação de ACM Neto nessas operações.
As mensagens mencionam ainda uma captação de 50 milhões de reais prevista junto ao instituto de previdência do Amazonas, o Amazonprev, em junho de 2024. Em 2025, um lobista escreveu que a operação no Amazonas avançaria graças a um grupo de influência local e acrescentou: “Lá é sócio do Rueda”. Sobre o Rio de Janeiro, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, escreveu a Vorcaro: “Rueda seria nosso cara! Precisaria ter entrado no banco mais cedo! Ele tem alguns estados”.
Vorcaro ofereceu jatos executivos a Rueda e providenciou voos para familiares do presidente do União Brasil, de acordo com as mensagens. Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Master propôs a contratação do escritório de Rueda para quatro ações, em contratos que somavam 15,4 milhões de reais.
Na proposta de delação, segundo o UOL, Vorcaro atribui a Rueda articulações para aproximar o Master dos institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, a Cedae. Os institutos dos três estados foram alvo de desdobramentos da Operação Compliance Zero, a investigação da PF sobre o Master.
O nome de Rueda aparece também em outra investigação. Como mostrou o Bastidor, Mohamad Hussein Mourad, dono da Copape, e seu sócio Roberto Augusto Leme Silva, o Beto Louco, afirmaram ter pago propina a Rueda para que ele atuasse como articulador político do grupo em Brasília. Nas propostas de delação negociadas com o Ministério Público de São Paulo, às quais a reportagem teve acesso, os dois empresários usam expressamente o termo “propina” para se referir aos pagamentos.
Rueda nega irregularidades. Afirma que os pagamentos do Master correspondem a serviços profissionais e que a relação era de natureza profissional, com contratos, emissão de notas fiscais e recolhimento de tributos. ACM Neto afirma que os valores recebidos por sua empresa correspondem a serviços efetivamente prestados e nega ter atuado para direcionar investimentos de fundos de previdência ao Master.