Um documento que serviu como base para a Amprev aplicar 400 milhões de reais das aposentadorias dos funcionários públicos do Amapá em Letras Financeiras do Banco Master dedica mais espaço à mera descrição da estrutura física da instituição financeira de Daniel Vorcaro do que à sua situação financeira.

O relatório, obtido com exclusividade pelo Bastidor, foi produzido em julho de 2024 em meio às discussões da Amprev sobre as garantias do Master. À época, o presidente do órgão era Jocildo Silva Lemos, que foi alvo da operação  Zona Cinzenta da Polícia Federal, antes de renunciar. Ele é próximo do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, figura política mais influente no governo do estado, e do governador Clécio Luís.

A PF sustenta que houve gestão temerária ou fraudulenta na Amprev. Investiga os indícios de possível lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos ou valores. Segundo a polícia, Jocildo Lemos era a figura central, responsável por conduzir as reuniões, orientar os encaminhamentos de votação e, posteriormente, assinar as ordens de transferência.

O documento é resultado do que foi chamado de “uma diligência” feita por integrantes do órgão em 22 de julho de 2024. Estiveram na sede do Master em São Paulo como representantes da Amprev Alana Cristine Lima Sousa, diretora Financeira e Atuarial; José Milton Afonso Gonçalves, assessor de Planejamento e membro do comitê de Investimentos; e Carlos Roberto dos Anjos de Oliveira, chefe da Divisão de Investimentos e Mercado.

Eles foram recebidos por Paula Vouguinha, gerente de Relações Institucionais do Master, Andre Kruschewsky, diretor jurídico, Angelo Silva, diretor financeiro, Luiz Bull, diretor de operações, e Alberto Felix, superintendente executivo de tesouraria.

O relatório do trio foi produzido depois que a Amprev já havia investido 300 milhões de reais no Master. O documento serviu de base para um último aporte de 100 milhões de reais. Como mostrou o Bastidor, a diretoria comandada por Jocildo, aliado de Alcolumbre, decidiu investir 400 milhões de reais em papéis do Master a despeito de alertas da área técnica.

O aporte foi decidido em três reuniões extraordinárias, nos dias 12, 19 e 30. As atas desses encontros registraram alertas técnicos e referências a “ruído de mercado” envolvendo o Master, além de menção a procedimentos do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal em relação ao banco. Citavam ainda uma notícia de que a Caixa recusou ativos semelhantes por considerá-los de alto risco. Não adiantou.

Entre a segunda e terceira reunião, Alana Cristine Lima Sousa, José Milton Afonso Gonçalves e Carlos Roberto dos Anjos de Oliveira estiveram no Master. Na volta, produziram um documento de 105 páginas. Dessas,91 páginas são preenchidas com anexos fornecidos pelo próprio banco. O relatório propriamente dito sobre a parte financeira ocupa apenas 14.

Das 14 páginas, 8 descrevem instalações, ambientes e organização interna do banco, como num folheto de propaganda imobiliária. Apenas cinco linhas, no final de uma das páginas, tratam da relação do banco com Regimes Próprios estaduais de Previdência Social, tema que deveria ser mais importante para determinar a aplicação de dinheiro público de aposentadorias.

Em vez de se debruçar sobre finanças, o relatório da Amprev mostra a a organização dos ambientes internos e a disposição dos setores na sede visitada. Constam no documento 16 fotos da estrutura física do Master. São apresentados os espaços ocupados pelas áreas administrativas, de tecnologia, operações e atendimento, com ênfase na “modernidade” das instalações e na integração entre os departamentos.

“O banco possui uma estrutura física compatível a de seus pares, com capilaridade no Brasil através de empresa terceirizada para operações de crédito consignado, que está presente no Estado do Amapá”, diz o documento.

O texto também menciona a existência de áreas dedicadas à tesouraria, compliance e gestão, ressaltando a estrutura como adequada ao porte e às atividades desenvolvidas pela instituição.

O documento, a partir de fotos, enfatiza a organização funcional do banco, indicando a divisão entre as áreas de negócios e suporte, além da atuação integrada das equipes. Há referência ao uso de tecnologia e à estrutura voltada para inovação, com destaque para a digitalização de processos.

“A estrutura do Banco Master-Comercial ocupa todo 5° andar da Torre B do prédio”, diz o relatório. Em outro trecho é destacada “a sala principal de reunião do 5° andar, com várias outras salas de vários tamanhos”.

Em relação à questão financeira, o relatório apresenta informações gerais sobre o desempenho do Master com base em informações fornecidas pelo próprio banco. São mencionados o crescimento das operações, a expansão da carteira de crédito e a evolução dos resultados. São citados dados de demonstrações financeiras, incluindo lucro, patrimônio e indicadores de desempenho, apontando para um cenário de crescimento consistente.

A conclusão do trio da Amprev, que consta no relatório de diligência, é que “as informações apresentadas confirmam um compromisso sólido com a transparência, inovação e sustentabilidade financeira, demonstrando segurança quanto ao investimento a ser realizado”.

A ida dos integrantes da Amprev ao Master foi justificada pela necessidade de esclarecer uma notícia publicada no jornal O Globo sobre operação de aquisição de ativos de renda fixa e Letras Financeiras não aprovados pelo comitê da Caixa Asset.

O relatório dedica somente uma página ao tema reproduzindo os argumentos da instituição. Diz que as informações “demonstram a solidez e a transparência do banco”.

O Bastidor procurou a Amprev nesta terça-feira (24). Perguntou sobre a visita e questionou os critérios técnicos que embasaram a avaliação positiva na conclusão do relatório. Não houve retorno.