Um vídeo divulgado neste domingo mostra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e a esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jato ligado ao ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. O registro, datado de 22 de agosto de 2025, foi obtido pelo jornal O Globo. A aeronave é a mesma que, segundo relatório da Polícia Federal anexado à Operação Compliance Zero, integrava um acordo de pagamento entre o Master e o escritório de Viviane.

O registro contradiz a versão divulgada em abril pelo gabinete de Moraes, que classificou como falsa qualquer informação sobre viagens do ministro em aeronaves ligadas a Vorcaro. A viagem ocorreu no mesmo dia em que Moraes discursou na conferência de encerramento do 24º Fórum Empresarial LIDE, no Hotel Fairmont Rio de Janeiro, segundo a programação oficial do evento.

A aeronave é um Embraer EMB-135BJ, prefixo PPNLR, fabricado em 2012. Segundo certificado de matrícula emitido pela Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, a proprietária do avião é a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S/A, com sede em Alphaville, Barueri, e a operadora, num programa de compartilhamento, é a Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços Ltda, também sediada em Barueri.

Vorcaro foi sócio da própria Prime Aviation. O quadro societário da empresa, além do ex-dono do Master, era formado pela holding Prime Aviation Participações e Serviços S.A., por Marcus Vinicius da Mata e por Rodolfo Garcia da Costa.

Relatório da PF mostra que o escritório de Viviane já tinha um contrato de cerca de 131 milhões de reais com o Master quando, em 12 de maio de 2025, fechou um segundo contrato de prestação de serviços jurídicos e honorários advocatícios de até 50 milhões de reais com uma empresa do banqueiro. Sete dias depois, em 19 de maio, as partes assinaram uma minuta complementar prevendo que parte desse valor fosse paga por meio de cotas de um jato e de um helicóptero, entre eles o próprio PPNLR usado na viagem ao Rio.

Um mês antes da viagem, o Banco Central já havia enviado ao Ministério Público Federal um comunicado em que apontou fortes indícios de gestão fraudulenta nas operações entre o Banco de Brasília, o BRB, e o Master.

A PF recuperou, no celular de Vorcaro, o envio de uma brochura da empresa Prime You a Viviane com os valores das cotas, 5,51 milhões de dólares pela participação de 33,33% na Fraction 024, dona do Legacy 650, e 1,34 milhão de dólares pela participação de 20% na Fraction 053, que estava adquirindo o helicóptero EC 155 B1. Pela cotação do dólar de 1º de setembro, dia em que o material se tornou público, os valores equivalem a aproximadamente 29,6 milhões de reais e 7,2 milhões de reais, uma soma de cerca de 36,8 milhões de reais.

Mensagens de WhatsApp recuperadas pela PF também mostram Vorcaro perguntando, em 16 de julho de 2025, a um contato salvo como Marcos Prime se Moraes e Viviane já estavam usando as aeronaves. O contato é o mesmo Marcus Vinicius da Mata, sócio da Prime Aviation e responsável pela gestão do uso do jato e do helicóptero. Ele respondeu que o acesso estava liberado e que o casal já havia usado o avião e o helicóptero, e acrescentou que a cobrança da parte variável ainda não tinha sido feita porque o contrato de Viviane havia mudado para outra empresa da família Moraes, mencionada nas mensagens como Lex. Vorcaro pediu então que Mata mantivesse contato direto com o casal para garantir o uso das aeronaves.

Numa nota de 1º de setembro, quando o relatório da PF se tornou público após André Mendonça retirar parte do sigilo da investigação, o escritório Barci de Moraes afirmou que o instrumento relativo às aeronaves nunca existiu ou foi assinado.

Neste domingo, contudo, após a divulgação do vídeo, o escritório emitiu novo comunicado, afirmando que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime Aviation, e que não tem contrato de prestação de serviços com a empresa nem adquiriu cotas dela. Segundo a nota, Vorcaro ou qualquer pessoa alheia ao escritório nunca esteve presente nos voos da Prime Aviation usados por integrantes da banca, e a escolha da aeronave cabe à própria empresa contratada.