Mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostram que, em diversas ocasiões, ele precisou intervir diretamente para destravar operações de interesse do Banco Master junto à Reag, gestora fundada por João Carlos Mansur. Dois casos estão relacionados aos negócios do Master com o BRB, que levaram à intervenção do Banco Central e desencadearam o fim do banco.
Nas conversas pelo WhatsApp, o advogado Daniel Lopes Monteiro, apontado pela PF como operador jurídico-financeiro do Master, queixa-se de Mansur e pede a intervenção de Vorcaro. Em um dos casos, relata ter procurado o fundador da Reag quatro vezes para acertar a compra de imóveis por meio de fundos ligados à gestora, sem sucesso.
Segundo a PF, os imóveis faziam parte de um conjunto de seis propriedades de alto padrão destinadas ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, como pagamento de propina. Os bens, quatro em São Paulo e dois no Distrito Federal, somavam 146,5 milhões de reais. A investigação rastreou pagamentos de mais de 74 milhões de reais.
Monteiro demonstra preocupação com o atraso. “Ainda não conseguimos resolver isso aqui (o pagamento dos imóveis). Minha inferência é que enquanto o Mansur não entrar no circuito a coisa não sai. E enquanto vc (sic) não cutucar o Mansur ele não vai entrar no circuito… Já pedi a ele uma vez ontem e 3 vezes hoje”, escreveu a Vorcaro.

A conversa ajuda a mostrar o papel que a PF atribui à Reag no esquema do Master. Segundo os investigadores, fundos administrados pela gestora serviram para movimentar dinheiro, inflar o valor de ativos e pulverizar recursos por uma rede de fundos. A Reag também aparece nas operações entre Master e BRB.
As mensagens revelam, porém, que a existência dessa estrutura não bastava para fazer as operações avançarem. Em diferentes momentos, operadores ligados ao Master recorriam a Vorcaro quando não conseguiam uma resposta da Reag. Vorcaro, então, acionava Mansur.
Foi o que ocorreu em outra conversa, em janeiro deste ano. O advogado Monteiro contou a Vorcaro que havia falado com Mansur sobre uma cessão de precatórios e perguntado quais fundos seriam usados na operação. Como Mansur ainda não havia respondido, Monteiro pediu novamente a Vorcaro para “cutucar” Mansur para acelerar o negócio.
Segundo a PF, os ativos estavam ligados a uma negociação com o BRB. Na mesma conversa, Vorcaro pediu a Monteiro que preparasse uma carta do Master ao banco público propondo uma parceria. O banqueiro indicou os pontos que deveriam constar do documento e deixou para o advogado e sua equipe a elaboração dos argumentos sobre “oportunidades” e “potenciais sinergias” entre as duas instituições.
As conversas também reforçam, na avaliação da PF, a participação pessoal de Mansur. Quando uma operação emperrava dentro da Reag, não bastava procurar funcionários ou gestores dos fundos: os operadores do Master buscavam Vorcaro para colocar Mansur “no circuito”. A dinâmica mostra a proximidade entre os dois empresários e o peso atribuído ao fundador da Reag nas operações de interesse do Master.
Mansur deixou o comando da Reag e, neste mês, assinou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. A delação, que tem Vorcaro como um dos principais focos, foi encaminhada ao Supremo e aguarda análise para homologação. Mansur é investigado no caso Master e também foi alvo da Operação Carbono Oculto. Ele nega irregularidades na atuação da Reag.
Vorcaro continua preso preventivamente e é alvo de diferentes frentes da investigação sobre o Master. Monteiro também permanece preso preventivamente desde abril. Sua defesa afirma que ele exerceu atividade profissional regular e nega participação em ilegalidades.
Paulo Henrique Costa também está preso desde abril. A defesa de Costa nega que ele tenha cometido crimes.