O escritório Nelson Wilians & Advogados Associados mantém cinco contratos com o Banco do Brasil enquanto seu fundador é alvo de três investigações. Os vínculos vencem entre outubro e dezembro deste ano, segundo resposta do banco a um pedido de acesso à informação do Bastidor.
O BB informou a existência de 103 contratos com o escritório: cinco ainda vigentes e 98 já encerrados. Os atuais vieram de uma licitação aberta em 2020. Dois vencem em 26 de outubro, um em 18 de novembro e os outros dois em 12 de dezembro de 2026.
O banco, porém, não informou quanto paga ao escritório, quais regiões são atendidas nem o volume de processos sob responsabilidade da banca. Alegou que a divulgação poderia expor informações estratégicas sobre gestão de fornecedores, precificação e recuperação de crédito.
O Bastidor pede essas informações desde outubro de 2024. O escritório atua em parte do chamado contencioso de massa do BB, formado por grande número de ações sobre temas recorrentes.
A manutenção dos contratos ganha relevância após uma sequência de operações policiais envolvendo Nelson Wilians. Em 13 de agosto deste ano, ele foi alvo de buscas na Operação Arena, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas no setor de apostas. Seu escritório presta serviços à PixBet, uma das empresas envolvidas. Wilians diz que a relação é estritamente profissional. No dia seguinte, ele anunciou seu afastamento, por prazo indeterminado, do Comitê Executivo da banca.
Em julho, o advogado já havia sido alvo da Operação Distrato, que investiga a comercialização de créditos fraudulentos de ICMS usados para reduzir impostos de empresas. O escritório afirmou que colaborava com as autoridades.
Antes disso, em setembro de 2025, a Polícia Federal fez buscas na casa e no escritório de Wilians durante a investigação sobre descontos indevidos em benefícios do INSS. A apuração examinava transações dele com o empresário Maurício Camisotti, um dos principais operadores do esquema que lesou pessoas pobres que recebiam aposentadorias e pensões. Wilians negou participação nas fraudes.
A relação com o BB chegou a ser questionada pela CPMI do INSS. Em outubro de 2025, a comissão aprovou um requerimento do deputado Sidney Leite, do PSD do Amazonas, pedindo ao banco a rescisão dos contratos. O BB recusou. Em resposta enviada naquele mês, afirmou que a fiscalização dos serviços não havia encontrado elementos que justificassem o rompimento. Disse também que acompanhava a conduta do escritório e de seus sócios e que adotaria medidas caso identificasse atos passíveis de sanção. A avaliação foi feita antes das operações sobre ICMS e apostas.
Agora, questionado pelo Bastidor, o banco também se recusou a informar se houve suspensão, redução de escopo, decisão de não renovar contratos ou abertura de procedimentos internos depois das buscas realizadas a partir de setembro de 2025. Segundo o BB, esses dados revelariam critérios de avaliação de fornecedores e estratégias negociais.
A relação comercial com Nelson Wilians é antiga. Em 2014, o escritório disputava uma contratação nacional para atuar em parte do estoque de mais de um milhão de processos do banco. Em entrevista à Forbes em 2024, Wilians afirmou que os honorários relacionados ao BB chegaram a 967 milhões de reais à época.
Os documentos entregues ao Bastidor mostram que, em dezembro de 2015, foram assinados 32 contratos derivados de um credenciamento aberto em 2013. Somados, eles previam atuação nos 26 estados e no Distrito Federal em causas cíveis, trabalhistas, tributárias, penais e administrativas. Parte do serviço incluía ainda cobrança de dívidas e recuperação de valores para o banco.
As tabelas daquela época mostram que a remuneração variava de acordo com cada etapa dos processos e, em alguns casos, com o resultado obtido. No Ceará, por exemplo, o escritório podia receber 300 reais pela complementação do cadastro de uma ação cível, 200 reais pelo registro da sentença e 500 reais pelo encerramento e arquivamento do processo. A rejeição definitiva de todos os pedidos contra o BB podia gerar outros 600 reais.
Na recuperação de crédito, o pagamento podia corresponder a uma parcela do valor obtido. No Tocantins, um dos contratos previa de 2% a 8% do dinheiro recuperado por acordo, conforme o cumprimento de metas, com possibilidade de chegar a 10% em campanhas específicas.
Essas tabelas mostram apenas as regras previstas nos contratos antigos. Não permitem calcular quanto o escritório recebeu nem o custo dos contratos atuais. Para isso, seria necessário conhecer o número de processos, os serviços prestados e os resultados obtidos – dados que o BB não forneceu.
Os 32 contratos de 2015 foram prorrogados até dezembro de 2021. O banco registrou depois 32 contratos emergenciais, encerrados em junho de 2022, e outros 34 contratos assinados naquele ano.
O Bastidor procurou o Banco do Brasil e o escritório Nelson Wilians & Advogados Associados para comentar a manutenção dos contratos e informar se as investigações tiveram impacto na relação entre as partes. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.