A Justiça de São Paulo determinou a quebra do sigilo bancário do CEO da Fictor, Rafael Góis, e do ex-sócio Luiz Phillippe Gomes Rubini, a pedido de uma credora. A medida permite examinar os extratos bancários dos dois nos últimos três anos e busca localizar recursos que possam garantir o ressarcimento da investidora.
O juiz Fábio Henrique Prado de Toledo, da 3ª Vara Empresarial de Conflitos Relacionados à Arbitragem, determinou também que o Banco Central forneça informações sobre patrimônio e transferências internacionais dos dois. Rubini já recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo para sustar a medida.
A quebra de sigilo é uma antiga reivindicação dos credores da Fictor, que tenta reorganizar uma dívida de 4,2 bilhões de reais. Os primeiros pedidos foram apresentados em fevereiro deste ano, no processo de recuperação judicial, mas foram negados, assim como as tentativas seguintes.
Em março, Góis e Rubini tiveram o sigilo bancário quebrado na Operação Fallax, da Polícia Federal. Naquela ocasião, os dados ficaram restritos à investigação criminal. A nova ordem permite examinar as movimentações numa ação individual de cobrança.
Nessa ação, uma tentativa de bloqueio de bens não encontrou saldo na conta dos executivos, segundo a petição da investidora. O acesso aos extratos bancários busca identificar por onde o dinheiro passou, para quem foi transferido e se houve movimentações para contornar as ordens judiciais.
Ao autorizar a medida, Toledo citou informações da Laspro Consultores, administradora judicial da Fictor, e da Operação Fallax. Para o juiz, as informações apontam indícios de captação fraudulenta de recursos e esvaziamento patrimonial em prejuízo dos credores.
Os extratos serão requisitados pelo Sisbajud, sistema que conecta o Judiciário às instituições financeiras. O BC terá 15 dias para informar sobre bens declarados no exterior, operações de câmbio e transferências internacionais, além de identificar instituições financeiras estrangeiras vinculadas aos empresários.
O advogado Vitor Gomes Rodrigues de Mello, que representa a investidora, sustenta na petição que essas informações são necessárias para rastrear a origem e o destino dos recursos e identificar possíveis transferências a terceiros.
A decisão ocorre enquanto os credores voltam suas atenções para o patrimônio pessoal dos sócios. Advogados ouvidos pelo Bastidor afirmam estar mais concentrados em localizar bens e ativos do que na reorganização da companhia. Entre eles, a avaliação é que a falência é questão de tempo.
A quebra de sigilo pode fundamentar novos pedidos de bloqueio, embora ainda não represente recuperação de dinheiro.
A Fictor está sem a proteção que suspende execuções e bloqueios, o chamado stay period, e não apresentou a atualização do plano de recuperação judicial exigida pela Justiça. Em 3 de setembro, a juíza Fernanda Perez Jacomini deu cinco dias para a correção da proposta, sob risco de falência.
Entre as exigências estavam a explicação de como o grupo pretende pagar os credores e corrigir inconsistências nos laudos econômicos e patrimoniais.
Apesar das pendências, os credores foram convocados para discutir e votar o plano de recuperação em assembleia virtual no dia 6 de outubro, às 14h. Se não houver quórum, a reunião ocorrerá em segunda convocação no dia 14, no mesmo horário. O edital prevê a aprovação, rejeição ou modificação da proposta, além da eventual formação de um comitê de credores.
A crise da Fictor veio depois de duas tentativas frustradas de expansão, ambas com potencial para dar fôlego aos negócios de Daniel Vorcaro. Em 2024, a Fictor se comprometeu a investir 1 bilhão de reais na compra de ações do BRB. O reforço de capital ampliaria a capacidade do banco público de comprar carteiras de crédito do Master – operações que colocavam dinheiro no caixa da instituição de Vorcaro. O aporte, porém, não ocorreu.
Em novembro de 2025, a Fictor reapareceu como candidata a comprar o Master. A proposta previa um aporte imediato de 3 bilhões de reais para reforçar o capital do banco, então em crise. A operação também não avançou: no dia seguinte ao anúncio, o BC decretou a liquidação do Master. A participação da Fictor nas duas negociações chamou a atenção da auditoria contratada pelo BRB, que apontou possíveis conflitos e alinhamentos de interesses.