O ex-ministro do Tribunal de Contas da União Bruno Dantas assumiu nesta quinta-feira (15) a presidência executiva do conselho de administração da Avibras Aeroco, fabricante de sistemas de defesa. A empresa acaba de ser comprada pela Globe Investimentos, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da J&F. A própria Avibras Aeroco anunciou o negócio.
A Globe controla a Avibras Aeroco por meio da Nova AVB, da qual é a única acionista. A Globe afirma não fazer parte da J&F. As duas, contudo, pertencem a Joesley e Wesley Batista.
Dantas renunciou ao TCU em 31 de agosto, aos 48 anos. Poderia ficar no tribunal até 2053. Em seu lugar, assumiu o ex-senador Rodrigo Pacheco.
Em dezembro de 2025, o voto de Dantas prevaleceu no julgamento que definiu o modelo do leilão do Tecon 10, o novo terminal de contêineres do Porto de Santos, com investimento previsto de 6,45 bilhões de reais. O modelo era o preferido da JBS Terminais, dos mesmos irmãos Batista, como noticiou o Bastidor à época.
O Porto de Santos também passa pela família do ex-ministro. A Oitenta & Nove Ponto Um Administração e Participações, que tem como sócios a mulher, o cunhado e o sogro de Dantas, controla o Consórcio Portolog. O consórcio venceu a licitação de uma área de 242 mil metros quadrados no Saboó, num contrato de 1,06 bilhão de reais. O contrato chegou ao TCU. Em 19 de agosto, o plenário do tribunal derrubou a cautelar do ministro Augusto Nardes que suspendia o contrato. Doze dias depois, Dantas deixou o tribunal.
A Avibras Aeroco foi criada neste ano com as fábricas e as tecnologias da Avibras Indústria Aeroespacial. Fundada em 1961 por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, a Avibras desenvolveu o Astros, sistema de lançadores de foguetes usado pelo Exército e exportado para países do Oriente Médio. A empresa ficou sob controle da família de um dos fundadores, João Verdi de Carvalho Leite, até a última crise.
Em março de 2022, a Avibras pediu recuperação judicial pela terceira vez, depois das de 1990 e 2008, e demitiu 420 funcionários. Os metalúrgicos entraram em greve em setembro daquele ano. A paralisação durou 1.280 dias e só terminou em março de 2026, com um acordo para pagar 230 milhões de reais em dívidas trabalhistas. O plano de recuperação separou os ativos das dívidas. A antiga Avibras ficou com os passivos, e a fábrica de Jacareí, no interior de São Paulo, voltou a operar em maio, já como Avibras Aeroco.
A conclusão da compra foi anunciada nove dias depois de a Justiça cobrar provas de que a reestruturação da Avibras está completa. Em 6 de outubro, o juiz Matheus Amstalden Valarini, da 2ª Vara Cível de Jacareí, que conduz a recuperação judicial da Avibras Indústria Aeroespacial, deu 15 dias para a empresa comprovar que cumpriu as condições do plano.
Segundo a administradora judicial, citada na decisão obtida pelo Bastidor, não estão demonstradas a autorização da União para transferir à Avibras Aeroco bens de propriedade federal, a transferência de todos os ativos previstos e o novo acordo coletivo com os funcionários. O juiz também mandou apresentar os registros que comprovam a transferência da Avibras Aeroco para a Nova AVB, a holding que a Globe acaba de comprar.
Credores também pedem explicações. O Banco Fibra quer saber como fica a Avibras depois da transferência dos ativos e da venda da Nova AVB à Globe, que a decisão descreve como do “Grupo J&F”. O juiz deu dez dias para a empresa responder. O Banco Industrial do Brasil se manifestou sobre bens dados a ele em garantia e levados para o capital da Avibras Aeroco. O comunicado da Avibras Aeroco não trata das pendências apontadas na Justiça.