Em seu depoimento no final de dezembro, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, afirmou à Polícia Federal que o Banco Master cedeu ao BRB carteiras de crédito falsas. Segundo ele, o BRB tinha instrumentos para identificar que os créditos oferecidos pelo Master não existiam.

O depoimento foi colhido pela delegada Janaina Pereira Lima Palazzo em 30 de dezembro. Nele, Aquino reconstituiu o momento em que o BC teve “certeza” de que as carteiras eram falsas. As operações envolviam Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) geradas pela Tirreno Consultoria e pela Cartos Sociedade de Crédito, repassadas ao Master e, depois, cedidas ao BRB.

A Tirreno é investigada sob suspeita de ter originado uma carteira de 6,7 bilhões de reais em créditos consignados vinculados a operações inexistentes. “Como auditor de carreira, aplicando técnica, eu tenho certeza de que a governança do BRB deveria ter identificado a existência ou não dos créditos”, disse Aquino.

Ele relatou que a confirmação da inexistência dos créditos e a decisão de comunicar o caso ocorreram após uma reunião com representantes da Cartos e da Tirreno. Aquino descreveu a Cartos como uma empresa pequena e a Tirreno como pouco conhecida. Segundo ele, ambas foram representadas por uma única pessoa, André Felipe Maia. O encontro, registrado na agenda pública de Aquino, ocorreu na tarde de 27 de junho de 2025.

“Perguntei várias vezes quanto crédito havia sido gerado. Ele (André) começou dizendo: ‘gerei 50, gerei 30, gerei 50 milhões’ (…) Depois de uma hora de inquirição, os valores iam subindo. Alguns diretores da Cartos diziam: ‘eu nunca ouvi falar da Tirreno’. Ao fim, André respondeu: ‘não foi 200, não foi 300; nós geramos 6,2 bilhões’. Isso é impossível, do ponto de vista técnico, uma empresa gerar isso”, afirmou Aquino.

Aquino explicou ainda que, pela auditoria, é possível verificar a inexistência dos créditos ao checar o ponto central da operação: se o dinheiro chegou ao tomador. Segundo ele, não há registros de transferências (Pix ou TED) que comprovem o desembolso e, no caso da Tirreno, não aparece nenhuma movimentação desse tipo nos sistemas do Banco Central.

“Nós perguntamos várias vezes. Não tem elementos. Quantos TEDs e Pix a Tirreno fez na sua gestão? Não tem um TED ou um Pix feito pela Tirreno”, disse Aquino. Ele acrescentou que, nos registros do sistema financeiro, a Tirreno só aparece com relacionamento bancário com o Banco Master, sem vínculos com outras instituições.

O depoimento de Aquino durou pouco mais de uma hora. Ele negou ter recebido pressões para liquidar o Master.