O governo desistiu de levar a PEC do fim da escala 6×1 a votação no plenário do Senado nesta quarta-feira (2), horas depois de o texto ter sido aprovado na Comissão de Constituição e Justiça. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues, atribuiu o recuo a uma obstrução coordenada pela oposição, com participação direta do senador Flávio Bolsonaro e protagonismo do líder da oposição, Rogério Marinho, que também votou contra o texto no colegiado.
O plenário reuniu 75 senadores presentes, muito acima do mínimo de 49 exigido para aprovar uma emenda constitucional. Uma PEC precisa do voto favorável de três quintos dos senadores, o equivalente a 49 dos 81 integrantes da Casa, em dois turnos de votação. O governo contabilizava cerca de 54 votos favoráveis, número superior ao necessário. Mesmo assim, a base governista optou por não submeter o texto a voto.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, chegou a perguntar à base governista sobre a segurança do número de votos. Com o plenário cheio e a contagem informalmente favorável, a resposta dada foi de que não havia garantia total e que a base preferia adiar a votação.
Segundo Randolfe, presença em plenário não equivale a voto confirmado e o governo não tinha garantia de que os mais de 50 votos contabilizados se converteriam em aprovação nos dois turnos exigidos. Ele citou os quatro votos contrários registrados na CCJ, incluindo o de Marinho, como sinal de um bloco de oposição capaz de comprometer o resultado.
Ainda na CCJ, os senadores haviam aprovado um requerimento de calendário especial para a PEC, que dispensa o intervalo regimental de cinco sessões entre a aprovação na comissão e a votação em plenário.
O governo agora tenta um novo chamamento extraordinário para votar a PEC antes do primeiro turno das eleições, ainda em setembro. Se isso não for possível, a alternativa é o período entre o primeiro e o segundo turno. Um obstáculo adicional é que a votação exige a presença física dos senadores, sem possibilidade de voto remoto, o que complica reunir quórum durante a campanha eleitoral.
A obstrução ocorreu em um momento particularmente desfavorável para o governo no Congresso. A divulgação de mensagens que expõem a relação entre o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro deu novo fôlego à oposição nos últimos dias. Em menos de 24 horas, parlamentares protocolaram ao menos sete novos pedidos contra Moraes e o procurador-geral Paulo Gonet.
Nesta quarta-feira saiu também uma nova pesquisa Quaest com resultado desfavorável ao presidente Lula. No primeiro turno, Lula tem 37% das intenções de voto contra 29% de Flávio Bolsonaro. Mas há um empate técnico nas projeções de segundo turno, com 42% para Lula e 41% para Bolsonaro. A vantagem de Lula para Bolsonaro caiu de 3 pontos percentuais no levantamento anterior para 1 ponto percentual.