Onze dos quinze fundos de investimento usados no esquema apurado pela Operação Heritage, que atingiu o ex-governador de Mato Grosso e candidato ao Senado Mauro Mendes, do União Brasil, estavam sob administração do Banco Master ou da Sefer Investimentos. As duas instituições foram liquidadas pelo Banco Central no contexto das investigações sobre as fraudes de Daniel Vorcaro.
Cinco fundos da teia financeira estavam na Master S.A. Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários: Royal Capital e Lotte Word — que receberam, cada um, cerca de 154 milhões de reais pagos pelo governo de Mato Grosso — além do Coliseu, do Zurich e do London.
De acordo com relatório da Polícia Federal citado na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), o Royal Capital e o Lotte Word foram usados para escoar 308 milhões de reais em dinheiro público, obtidos por meio de uma cobrança sobre a Oi.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da corretora Sefer em 18 de novembro de 2025, um dia depois da primeira prisão de Vorcaro na Operação Compliance Zero, nomeando a EFB Regimes Especiais como liquidante.
Um mês depois, três desses fundos trocaram de administrador na mesma manhã. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram assembleias realizadas em 23 de dezembro: o Coliseu às 9h30, o Lotte Word às 10h e o Royal Capital às 10h30. As três atas foram protocoladas em 26 de dezembro, numa janela de 41 minutos. Os três passaram a ser administrados pela Qore DTVM, que administra 144 fundos, 99 em funcionamento. O Zurich seguiu o mesmo caminho — a CVM registrou a mudança em 12 de janeiro.
Os três fundos têm titulares formalmente distintos. Segundo a decisão, o Royal Capital tinha um único cotista, o desembargador Ricardo Gomes de Almeida, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), dono do escritório que recebeu os 308 milhões de reais originais da ação. O Lotte Word pertencia a Fernando Robério de Borges Garcia, pai do deputado federal Fábio Garcia, e a outro fundo. O Coliseu é controlado, em última instância, por integrantes da família Garcia.
A segunda administradora é a Sefer, que respondia por outros seis fundos da estrutura: Golden Bird, Silver Bird, GS Heritage, Evimeria, RAT e, originalmente, o Venture Finance. O Banco Central liquidou a Sefer em 26 de junho deste ano. A suspeita é de que o controlador da empresa tenha atuado como operador financeiro de Vorcaro. A Sefer foi alvo de uma das fases da operação Compliance Zero.
Dois desses fundos – Golden Bird e GS Heritage – continuam sob administração da Sefer, mesmo após a liquidação. O Golden Bird tem o maior patrimônio de toda a estrutura: 197 milhões de reais na última posição registrada, em novembro de 2024. Já o GS Heritage é o fundo que tem como cotistas os três filhos de Mauro Mendes e que deu nome à operação.
Há ainda um terceiro grupo. O Venture Finance, apontado pela Polícia Federal como ponto de convergência entre os núcleos de Mendes e Garcia, teve gestão e administração transferidas ao Grupo Reag, alvo da operação Carbono Oculto. A Reag Portfólio Solutions foi um dos 25 alvos de busca e apreensão da Heritage.
A troca de administradoras não alterou quem tomava as decisões. A gestão dos fundos permaneceu com a Acura Gestora de Recursos. A Polícia Federal pediu a suspensão de suas atividades, mas Dino negou, acompanhando a Procuradoria-Geral da República, por risco a investidores de boa-fé. A Acura foi alvo de busca e apreensão na quinta-feira (6).
Ao decidir suspender as atividades de 18 fundos, o ministro Flávio Dino atribuiu parte do problema à fiscalização. Disse que a flexibilidade regulatória, somada à insuficiência de mecanismos de supervisão da CVM para acompanhar operações de elevada complexidade, tem favorecido o uso indevido dos fundos de direitos creditórios para blindagem patrimonial e lavagem de capitais. Há no STF uma ação sob a relatoria do ministro que pretende elevar o repasse de dinheiro ao órgão.
O Bastidor entrou em contato com a Qore, a Acura e com os liquidantes da Sefer e do Master. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. A Reag informou que não irá comentar.

