A Alliança Saúde protocolou nesta quarta-feira (5) na Justiça de São Paulo um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar uma dívida de 1,14 bilhão de reais. O processo reúne a companhia e 28 subsidiárias e prevê descontos, pagamentos de longo prazo e conversão de créditos em ações. O caso foi distribuído ao juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
Na recuperação extrajudicial, a empresa negocia previamente com parte dos credores e pede à Justiça que homologue o acordo. Se aprovado, o plano pode alcançar também credores que não aderiram voluntariamente.
A companhia declara ter o apoio de credores que representam 54,38% das dívidas incluídas, percentual que apresenta como suficiente para obter a homologação e estender o plano aos demais credores.
Quase toda essa adesão está concentrada em dois fundos, OGMA (também chamado de Opus) e Prisma, que têm 532,6 milhões de reais a receber. O valor equivale a 46,77% de toda a dívida submetida ao plano e a 86% dos créditos favoráveis.
Sem os dois fundos, o apoio declarado à recuperação cairia de 54,38% para aproximadamente 7,6%. Isso não demonstra que os créditos sejam inválidos; torna, porém, sua origem e o direito de voto dos titulares pontos centrais para o futuro do plano.
O mesmo montante de 532,6 milhões de reais atravessou três momentos da história recente da Alliança. Primeiro, pertenceu a veículos ligados ao antigo bloco controlador. Depois, foi destinado a uma tentativa de capitalização. Como a operação fracassou, o valor não foi convertido em ações, permaneceu como dívida e agora sustenta os votos dos dois maiores apoiadores da recuperação.
Segundo a petição inicial, a origem da controvérsia remonta ao período entre abril de 2022 e fevereiro de 2026, em que a Alliança foi controlada indiretamente pelo empresário Nelson Tanure, como diz a própria Alliança no pedido à Justiça.
Em dezembro de 2025, a empresa aprovou um aumento de capital que poderia chegar a 797,3 milhões de reais. O valor mínimo era justamente de 532,6 milhões. O montante correspondia a créditos do Fonte de Saúde e da Lormont, veículos vinculados a Tanure. A proposta era usar a dívida para comprar novas ações da Alliança, emitidas por 5,60 reais cada.
A capitalização não alcançou a quantidade mínima de ações e foi cancelada em março de 2026. A companhia informou que devolveria os valores pagos pelos subscritores. Segundo os fundos, o cancelamento preservou a condição de dívida exigível dos créditos.
Em fevereiro deste ano, o controle da Alliança mudou. OGMA e Prisma executaram garantias e receberam ações da companhia, além dos créditos anteriormente detidos pelos antigos controladores. Pouco depois, venderam as participações ao fundo Tessai, da gestora Geribá Investimentos, que passou a controlar a empresa, mas permaneceram como credores.
O fundo OGMA tem um crédito de 437,2 milhões de reais. O Prisma detém os 95,4 milhões restantes. Foi nessa condição de credores que OGMA e Prisma aderiram ao plano. Os fundos afirmam que, como já haviam vendido suas ações da Alliança, podem votar normalmente.
A Vórtx, representante de debenturistas, sustenta que a relação dos créditos com o antigo controle, a documentação e a passagem temporária dos fundos pelo capital da Alliança precisam ser examinadas antes do reconhecimento dos votos. OGMA e Prisma afirmam que as restrições legais aplicáveis a controladores e partes relacionadas não os alcançam.
A Justiça ainda não decidiu quem tem razão. O questionamento apareceu no processo cautelar que antecedeu a recuperação, mas o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho encerrou a ação após o fim do período de proteção concedido à Alliança. O magistrado afirmou que as controvérsias sobre créditos, votos e documentos deveriam ser discutidas pelas vias judiciais adequadas.
A disputa ganha importância diante das condições oferecidas aos demais credores. A principal alternativa de pagamento prevê o recebimento de apenas 30% da dívida. Os 70% restantes seriam perdoados.
Outra opção permite converter a totalidade do crédito em ações emitidas por 1 real cada, menos de um quinto dos 5,60 reais previstos na capitalização cancelada poucos meses antes.
Os balanços mostram que a necessidade de reestruturação financeira é concreta. A Alliança encerrou 2025 com prejuízo de 1,37 bilhão de reais, influenciado por baixas contábeis e capital de giro negativo de 1,28 bilhão. A companhia atribui a crise aos juros elevados, à dificuldade de obter crédito, aos atrasos de operadoras de saúde e a uma disputa com a Siemens.
Ao examinar o pedido, a Justiça terá que responder à questão que sustenta a recuperação: se os 532,6 milhões de reais destinados a uma capitalização frustrada podem agora ser usados como votos decisivos para estender o plano aos demais credores.

