A campanha do presidente Lula vai pedir ao Tribunal Superior Eleitoral direito de resposta contra a reportagem da revista Veja desta semana em que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, diz ter pago cerca de 30 milhões de reais em dinheiro vivo para um filme sobre Lula.

Na quinta-feira (8), um dia antes da publicação, os advogados Marco Aurélio de Carvalho, um dos coordenadores da campanha de Lula, e Reinaldo Santos de Almeida levaram à Polícia Federal, em nome próprio, uma notícia de fato que trata qualquer acusação do banqueiro contra o governo como possível manobra, coordenada com a campanha de Flávio Bolsonaro, para interferir no resultado do segundo turno.

A Veja publicou áudios e documentos em que Vorcaro afirma ter liberado cerca de 30 milhões de reais em espécie para despesas do documentário sobre Lula dirigido pelo cineasta Oliver Stone. No relato do ex-banqueiro, o dinheiro abriria caminho para o Master captar recursos de fundos de pensão de estatais.

De acordo com a Veja, Vorcaro afirmou que a aproximação com o PT foi feita por Augusto Lima, então seu sócio, com intermediação do senador Jaques Wagner. Diz também que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto cobrou 10% do que o banco captasse. Ele cita ainda Olavo Noleto, então secretário-executivo da Secretaria de Relações Institucionais, comandada à época pelo ministro Alexandre Padilha, e um operador identificado apenas como Júlio. Segundo Vorcaro, os dois intermediavam contatos com dirigentes dos fundos de pensão.

Segundo a revista, o relato foi apresentado à Procuradoria-Geral da República, a PGR, nas tratativas de delação, e o órgão não avançou por falta de prova dos pagamentos. O presidente Lula negou ter pedido ou recebido vantagem de Vorcaro. Alexandre Padilha disse não ter qualquer relação com o banqueiro.

A notícia de fato foi endereçada ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e não menciona a Veja. O pedido parte da notícia de que interlocutores de Vorcaro procuraram a Globo e a Record para negociar uma entrevista exclusiva. Os advogados relatam ainda que receberam informação de que uma gravação de depoimento atribuída a Vorcaro, guardada em um HD, foi entregue a terceiros fora dos canais formais de colaboração.

Segundo o documento, a gravação traz acusações contra adversários de Flávio Bolsonaro e contra integrantes do governo, entre eles ministros. A informação recebida pelos advogados é de que as acusações não têm respaldo em provas e foram concebidas para produzir efeito político. Eles afirmam não ter o material e pedem que a PF verifique se ele existe, quem o gravou e por onde circulou.

Os advogados querem que a PF examine com prioridade qualquer acusação atribuída a Vorcaro contra o presidente Lula ou ministros que venha a ser divulgada.

Pedem também os registros de visitas e de entrada de equipamentos eletrônicos na unidade em que Vorcaro está preso nos últimos 90 dias. Querem ainda a identificação dos intermediários que procuraram as emissoras em nome do banqueiro e a checagem de vínculos deles com a campanha de Flávio Bolsonaro, que negociou com Vorcaro 134 milhões de reais para o filme Dark Horse.

O documento pede que a notícia de fato seja anexada ao inquérito sobre os repasses ao Dark Horse e aos autos da Operação Compliance Zero, ambos sob relatoria do ministro André Mendonça. As investigações do caso Master estão suspensas por decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.

Os advogados enquadram os fatos, em caráter provisório, como possível embaraço à investigação de organização criminosa, falsa imputação a pretexto de colaboração, divulgação de fatos sabidamente inverídicos durante a campanha e denunciação caluniosa.

Vorcaro está preso pela segunda vez desde março. A PF e a PGR rejeitaram duas propostas de colaboração apresentadas por ele por considerarem seus relatos incompletos e seletivos.

Em nota, a assessoria de Lula chamou a reportagem de “peça eleitoral irresponsável”. Afirmou ainda que não há registro do depoimento de Vorcaro na PF e que nenhuma delação com esse conteúdo foi aceita. O texto diz que o ex-banqueiro busca se vingar das autoridades que liquidaram o Master e o levaram à prisão, aponta contradição no fato de ele tratar o dinheiro de Dark Horse como patrocínio normal e informa que serão tomadas medidas judiciais.