A Polícia Federal concluiu que Jair e Eduardo Bolsonaro atuaram para interferir na ação penal que julga a tentativa de golpe de Estado — processo no qual o ex-presidente é réu no Supremo Tribunal Federal. Segundo o relatório entregue a Alexandre de Moraes, pai e filho agiram com apoio de Silas Malafaia e Paulo Figueiredo para pressionar o STF, forçar uma anistia no Congresso e enfraquecer as instituições que ameaçam o grupo. A PF atribui ao núcleo os crimes de coação no curso do processo e tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito.

As condutas, afirma a PF, seguem em curso e têm como objetivo pressionar STF e Congresso aos interesses do grupo. Os investigadores identificaram divisão de tarefas, articulação internacional e uso de sanções estrangeiras como forma de pressão sobre autoridades brasileiras.

De acordo com o relatório, Eduardo articulou sanções dos Estados Unidos contra o Brasil. Dois dias após anunciar que “essa não será a única novidade vinda dos Estados Unidos sobre esse tema da perseguição no Brasil”, o governo americano impôs tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A medida foi apresentada como resposta à “perseguição” contra Jair Bolsonaro. O deputado comemorou e condicionou publicamente a retirada das sanções a três exigências: anistia ampla, nova legislação de liberdade de expressão e responsabilização de agentes públicos.

A PF diz que a sanção serviu para “impedir eventual condenação criminal do ex-presidente Jair Bolsonaro”. Em mensagem privada ao pai, Eduardo foi direto: “Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump. Eles não irão mais ajudar (…) Neste cenário vc: não teria mais amparo dos EUA (…) bem como estaria igualmente condenado final de agosto”.

Jair Bolsonaro, diz a PF, financiou a operação. Transferiu dois milhões de reais para o filho via Pix, no momento em que ele já estava nos Estados Unidos. A verba, segundo a PF, veio de doações e foi usada como instrumento de coação institucional. Eduardo remeteu 1,6 milhão de reais ao exterior e repassou 200 mil à esposa. A PF diz que ele usou a conta dela como “conta de passagem”.

Paulo Figueiredo, por sua vez, participou das tratativas com autoridades americanas. Acompanhou Eduardo em reuniões, teve acesso à Casa Branca e foi identificado como articulador político da ofensiva externa. Para a PF, a atuação de Figueiredo deu sustentação institucional à tentativa de ingerência estrangeira em assuntos internos do Brasil.

Já Silas Malafaia ajudou a moldar o discurso. Sugeriu a Jair um roteiro de vídeo: “Você não vai xingar o STF. Você não vai esculhambar o ALEXANDRE DE MORAES. Mas você pode colocar, sim, e deve: ‘Olha, minha gente, a questão da tarifa de DONALD TRUMP não tem a ver com a economia. Tem a ver com liberdade e justiça’”. Também propôs o bordão: “ANISTIA PARA TODOS! O Brasil da liberdade não será taxado”.

Segundo o relatório, Malafaia também atuou para pressionar, além do Supremo, o Congresso Nacional – principalmente o presidente das duas casas, Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

A investigação da PF revelou que mesmo proibido de usar redes sociais, Jair Bolsonaro ativou novo celular e disparou vídeos a aliados por listas de transmissão no WhatsApp. A PF encontrou quatro listas com nomes como “Deputados” e “Outros 2”.

O relatório também menciona o advogado Martin De Luca, da Rumble. Ele entregou a Jair uma petição protocolada nos EUA contra Moraes e orientou o conteúdo das postagens. Bolsonaro pediu: “Me orienta uma nota pequena da tua parte, que eu possa fazer aqui, botar nas minhas mídias, pra chegar a vocês de volta aí”.

A PF ainda encontrou movimentações financeiras fracionadas, compra de moeda estrangeira e uma minuta de pedido de asilo político na Argentina, salva no celular de Bolsonaro dois dias após a operação Tempus Veritatis. O documento, segundo perícia, foi redigido por Fernanda Bolsonaro, nora do Jair, e esposa do filho 01, o Flávio.

Contatos com Braga Netto

Outro achado da Polícia Federal no celular de Bolsonaro foi uma mensagem enviada por Braga Netto no dia seguinte à operação Tempus Veritatis

Alexandre de Moraes determinou que Jair Bolsonaro explique, em 48 horas, por que manteve contato com Braga Netto, general investigado em outra ação penal que apura a tentativa de golpe de estado, após ter sido proibido de falar com outros réus, bem como o plano de fuga para Argentina.

Leia íntegra da decisão de Moraes: