O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), admitiu na manhã desta quarta-feira (2) que teve um encontro privado com o banqueiro Daniel Vorcaro. A confirmação veio depois de reportagem do jornalista Paulo Motoryn em sua newsletter. De acordo com o texto, o encontro ocorreu em março do ano passado, meses antes da deflagração da operação Compliance Zero, que levou o dono do Banco Master à cadeia.

Segundo a reportagem, o encontro foi intermediado pelo advogado Ciro Rocha Soares. No relatório da Polícia Federal divulgado ontem por Mendonça, Soares aparece em conversas com Vorcaro, demonstrando proximidade com outras autoridades de Brasília, como o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em uma das trocas de mensagens com o banqueiro, ele manda uma foto sorrindo ao lado de Gonet e diz que o PGR “adora” o banqueiro.

Outro que também participou da organização do encontro foi o deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo. A reportagem indica que o parlamentar usou de sua proximidade com o ministro para facilitar o agendamento.

A reunião ocorreu no dia 14 de março, na sede do Instituto Iter, de André Mendonça, na capital paulista. O ministro afirmou que foi a única vez que se encontrou com Vorcaro e que não trataram diretamente sobre nenhuma investigação contra ele ou o Banco Master.

No dia 12 de fevereiro de 2025, Ciro Soares enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Mendonça, seguida de um áudio. “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, afirmou o advogado. O nome Vasco é, provavelmente, o alfaiate Vasco Vasconcelos, dono de um dos mais exclusivos ateliês de São Paulo.

De acordo com a reportagem, não é possível afirmar qual seria o “trabalho” de Soares em benefício de Vorcaro e se isso teria alguma relação direta com sua visita ao alfaiate ao lado de Mendonça.

A reportagem também explica que o conteúdo das mensagens não deixa claro o que foi discutido entre Mendonça e Vorcaro na reunião de março.

Em nota, Mendonça disse que se limitou a ouvir o que o banqueiro tinha a dizer. Posteriormente, no mesmo mês, recebeu em seu gabinete uma visita do advogado Ciro Rocha Soares e que em nos encontros o assunto tratado foi a “Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro”.

Ainda de acordo com Mendonça, sua atuação no processo acabou sendo contrária aos interesses do Banco Master, “em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos”. O ministro ainda disse que não iria comentar diálogos privados entre terceiros, referindo-se às mensagens entre Soares e Vorcaro.

Leia a íntegra da declaração do ministro André Mendonça:

Nota do gabinete do ministro André Mendonça

Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.

Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.

Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.

Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.