A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decidiu desarquivar o processo que apura possíveis irregularidades na venda de ações da Alliança Saúde para o Braslight, fundo de pensão da Light. A medida reabre uma investigação contra o empresário Nelson Tanure, que era o controlador da Alliança e acionista de referência da Light na época.
A decisão do colegiado da CVM representa uma reviravolta no caso. No ano passado, a área técnica não só arquivou o processo como também julgou improcedente o pedido de reabertura das investigações. Porém, na terça-feira (24), aceitou o recurso e determinou o aprofundamento das investigações.
O caso começou em março de 2025, quando o Braslight comprou do fundo Fonte de Saúde, ligado a Tanure, cerca de 115 milhões de reais em ações da Alliança. Três dias após a operação, os papéis da companhia despencaram quase 35%, gerando prejuízo de 38,24 milhões de reais aos pensionistas da Light. O movimento chamou a atenção do mercado, visto que o Braslight não costumava investir em ações. Hoje, o fundo de pensão acumula prejuízo multimilionário por investir em outros ativos ligados a Tanure.
Em abril de 2025, o gestor Vladimir Timerman, da Esh Capital, enviou ofício à CVM denunciando a operação. O documento apontava possível crime de insider trading, além de conflito de interesse, elevado risco para recursos previdenciários e fragilidade nas garantias dadas pelo Fundo de Saúde ao Braslight. Timerman é conhecido por outras denúncias contra Tanure.
A Superintendência de Relações com Empresas (SEP), no entanto, decidiu arquivar o caso. A área técnica entendeu que não havia elementos suficientes para punir os administradores da Light. Também defendeu que eventuais irregularidades na gestão do Braslight não deveriam ser analisadas pela CVM, e sim pela Previc, responsável pela previdência complementar.
Em dezembro, a área técnica negou o primeiro recurso apresentado pela Esh, no qual a gestora pedia a abertura de processo administrativo. Na decisão, a SEP considerou o pedido inadmissível por não cumprir os requisitos previstos em normas da CVM. Ao enfrentar o mérito, a área técnica manteve o entendimento de que não havia evidências suficientes para seguir com a apuração.
A Esh recorreu da decisão no colegiado. Na petição, sustentou que fatos ocorridos após o arquivamento do caso – como a execução de garantias – confirmaram os riscos apontados inicialmente na denúncia. A gestora subiu o tom contra a SEP, argumentando que a área técnica foi alertada sobre a fragilidade da operação, mas decidiu arquivar o caso sem aprofundar as investigações, o que teria contribuído para expor aposentados da Light a prejuízos relevantes.
Além da reabertura do caso, a Esh pediu que os servidores responsáveis pelo arquivamento fossem investigados. Por maioria, o colegiado decidiu reabrir o caso e, de forma unânime, negou a abertura de sindicância contra os técnicos. O diretor substituto Thiago Paiva Chaves, servidor de carreira da CVM, foi o único a votar contra a reabertura do caso. João Accioly e Marina Copola votaram a favor.
A mudança de rota no caso de Tanure soma-se a outras decisões recentes em resposta à crise deflagrada pelo Banco Master. Assim como o controlador do Master, Daniel Vorcaro, Tanure foi alvo da Operação Compliance Zero, que apura a prática de crimes contra o sistema financeiro. No início do mês, a CVM anunciou um novo modelo de supervisão, que prevê o endurecimento da fiscalização dos fundos de investimento, meio utilizado pelo Master e por facções criminosas em operações consideradas fraudulentas.
“O empresário Nelson Tanure esclarece que desconhece o objeto dessa demanda e não tem ciência da decisão supostamente proferida pela CVM. No mais, o empresário enfatiza que lamenta o espaço cedido pela imprensa para noticiar movimento praticado por indivíduo já sentenciado pela Justiça por persegui-lo”, diz a nota enviada pela assessoria de Nelson Tanure.
A decisão da CVM que determinou a reabertura do processo pode ser acessada neste link. Em relação à sentença citada pela assessoria de Tanure, o caso segue em tramitação na Justiça de São Paulo. Em novembro passado, o Ministério Público pediu a anulação do processo.
Texto atualizado às 11h10 de 27 de março para incluir a resposta da assessoria de Nelson Tanure.

