O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou à Procuradoria-Geral da República, a PGR, em junho, que pagou cerca de 30 milhões de reais em dinheiro vivo para custear um documentário sobre o presidente Lula feito pelo cineasta Oliver Stone, além de fazer pagamentos ao Instituto Lula. Segundo ele, os pagamentos foram a contrapartida exigida pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto para abrir ao Master o acesso a negócios com fundos de pensão de estatais.
O relato, parte da proposta de delação premiada de Vorcaro, e um áudio do banqueiro foram obtidos pela revista Veja e divulgados nesta sexta-feira (9).
As tentativas de delação de Vorcaro foram rejeitadas. A Polícia Federal recusou a primeira versão em 20 de maio, e a PF e a PGR recusaram a segunda em junho. Os investigadores consideraram a colaboração seletiva, por omitir fatos que a investigação já conhecia. O caso mais evidente foi o do senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí. Na primeira versão, Vorcaro tratou os repasses a ele como fruto de amizade. Ciro Nogueira nega irregularidades.
Apesar disso, o episódio do filme é descrito em detalhe. De acordo com a revista, o então sócio e presidente-executivo do Master, Augusto Lima, chegou a Vaccari por meio do senador Jaques Wagner, seu amigo e à época líder do governo no Senado.
No primeiro encontro, de acordo com o relato de Vorcaro narrado pela Veja, ficou definido o preço para que o Master obtivesse votos suficientes para ser credenciado a fazer negócios com os fundos de pensão de funcionários do Banco do Brasil (Previ) e da Caixa (Funcef), dois dos maiores do país. O banco deveria fazer “um pagamento por fora, ou seja, por espécie”, para as despesas do documentário, e repassar valores ao Instituto Lula, presidido por Paulo Okamotto. A revista identifica o filme como “Lula”, do cineasta americano Oliver Stone.
Segundo Vorcaro, Vaccari também cobrou 10% sobre tudo o que o Master captasse em fundos de pensão ligados à Caixa, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios. Pela conta registrada no material, de 10 bilhões de reais captados, 1 bilhão iria para o PT e 9 bilhões ficariam com o banco.
No áudio relatado pela revista, cuja data não foi informada, Vorcaro diz que Augusto Lima adiantou recursos a Okamotto e resume o pedido de Vaccari: “O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula”. Questionado sobre a comparação com Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que também recebeu dinheiro dele, o banqueiro afirma ter colocado mais recursos na produção sobre Lula. “Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal.” O financiamento de Dark Horse é investigado pela Polícia Federal em procedimento no Supremo Tribunal Federal.
Vorcaro afirma ter informado às autoridades que dispõe de mensagens, registros de quem sacou o dinheiro vivo e dados sobre os locais usados nas entregas.
Ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto foi preso em abril de 2015 pela operação Lava Jato, acusado de recolher para o partido propina de empresas com contratos na Petrobras. Em 2016, Vaccari foi convocado pela CPI dos Fundos de Pensão da Câmara depois de ser apontado em depoimentos como operador junto à Petros e à Funcef. Mais tarde, foi denunciado na Operação Rizoma, que apurou desvios no Postalis, o fundo dos Correios. Nenhuma dessas acusações resultou em condenação válida. O Supremo anulou as condenações e os atos da Lava Jato contra ele, e a ação da Rizoma foi trancada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
O relato também atinge o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que comandou a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência de janeiro de 2023 a março de 2025. Segundo Vorcaro, um operador identificado apenas como Júlio, com acesso ao gabinete de Padilha, apresentou o banqueiro ao secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto. Mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro mostram que o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, que mantinha outros negócios com o banqueiro, participou da aproximação.
Vorcaro diz ter ido ao Planalto para conhecer Padilha e afirma ter jantado com o ministro ao menos duas vezes. Depois disso, segundo Vorcaro, Júlio, Noleto e um terceiro homem, identificado como Fernando, estiveram em sua casa e disseram que o Master só entraria nos fundos de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios, a Previ, a Petros e o Postalis, se pagasse propina de 10% sobre tudo o que captasse.
Em 29 de abril de 2024, depois de semanas de cobranças de Vorcaro a Júlio registradas nas mensagens, o Master entrou na chamada lista exaustiva, cadastro oficial de instituições habilitadas a receber recursos dos fundos de pensão de estatais, feita pelo Ministério da Previdência. A lista abre caminho para negócios não com fundos de pensão, mas com regimes próprios de previdência de estados e municípios. No mesmo dia, Júlio pediu 500 mil reais ao banqueiro, que diz ter feito o pagamento. “Quero ver agora você virar uma boleta de verdade”, escreveu Vorcaro, usando o jargão do mercado para um investimento fechado. “É empenho de vida, Daniel, isso”, respondeu Júlio.
As negociações com os fundos federais travaram em julho de 2024, quando veio a público a tentativa do Master de vender 500 milhões de reais em letras financeiras à Caixa. Vorcaro passou, então, a buscar dinheiro em fundos de pensão de municípios nos quais Júlio tinha influência. Segundo ele, esses negócios renderam ao menos 6 milhões de reais em pagamentos a Padilha e a seus operadores, de acordo com a Veja.
Em outubro de 2024, Júlio escreveu ao banqueiro que o presidente o receberia e que Noleto marcaria a agenda. As mensagens não mostram se esse encontro aconteceu. Dois meses depois, em 4 de dezembro, Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, em reunião articulada por outros interlocutores: o advogado Walfrido Warde e o então chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana. O assunto, no entanto, era outro: Vorcaro queria proteção contra o Banco Central.
Em junho de 2025, Vorcaro reclamou que estava havia mais de um ano sem fechar nenhum investimento. Júlio atribuiu o fracasso às notícias sobre suspeitas de fraudes no Master. Em agosto, o banqueiro decidiu encerrar o trabalho, e o operador concordou.
Em nota, a assessoria do presidente Lula chamou a reportagem de “peça eleitoral irresponsável”. A assessoria afirma que não há registro do depoimento de Vorcaro na Polícia Federal, que nenhuma delação com esse conteúdo foi aceita pelo Ministério Público e pela PF e que a própria revista reconhece que a PGR não levou as acusações adiante por falta de provas. A nota diz, ainda, que o banqueiro busca se vingar das autoridades que liquidaram o Master e o levaram à prisão, aponta contradição no fato de ele tratar o dinheiro de Dark Horse como patrocínio normal e informa que serão tomadas medidas judiciais.
A campanha de Lula planeja pedir ao Tribunal Superior Eleitoral direito de resposta contra a reportagem. Um dia antes da publicação, os advogados Marco Aurélio de Carvalho, um dos coordenadores da campanha, e Reinaldo Santos de Almeida levaram à Polícia Federal uma notícia de fato que trata qualquer acusação do banqueiro contra o governo como possível manobra para interferir no segundo turno.
Alexandre Padilha disse não ter qualquer relação com Daniel Vorcaro. O Bastidor procurou o Instituto Lula e Walfrido dos Mares Guia, que não responderam até a publicação, e tenta contato com João Vaccari Neto.