Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro mostram que ele mantinha um relacionamento de amizade e proximidade com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Os dois se tratam por “meu amigo”, “meu amor”, “irmão”. No início do caso Master, Alcolumbre chegou a negar que conhecia Vorcaro.

As conversas foram extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro e reveladas pela revista Veja nesta quinta-feira (24). Há conversas entre os dois e conversas entre Vorcaro e o ex-ministro Fábio Faria, nas quais citam Alcolumbre ao fazer referências a festas e mulheres, de acordo com interpretação da PF.

Há outras conversas sobre reuniões, que fazem menção ao presidente da Câmara, Hugo Motta, e ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

A relação de amizade entre Alcolumbre e Vorcaro fica mais evidente numa conversa de 1º de fevereiro de 2025, logo após a votação que elegeu Alcolumbre à presidência do Senado com 73 votos. Vorcaro manda “parabéns”, chama o senador de amigo e deseja a ele os “melhores anos” e sucesso na “empreitada”.

Alcolumbre responde: “Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!”. Na mensagem seguinte, acrescentou: “Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!”. Vorcaro manda cinco emojis de coração e retribui: “E eu seu. A qualquer tempo pra qualquer coisa. Nunca vou esquecer”.

O banqueiro também recorria a Alcolumbre em momentos decisivos para o Master. Em julho de 2025, a venda do banco ao BRB dependia do aval do Banco Central. Numa conversa com Hugo Motta, Vorcaro contou que tinha tentado falar com o presidente do Senado, mas que Alcolumbre não tinha informações sobre a negociação.

Motta responde com uma informação que Vorcaro não tinha. “Galípolo ficou de ir lá para casa de Davi quando encerrasse a reunião”, diz. “Eu tava decolando quando o Davi me ligou para dizer isso.” As mensagens não mostram se o encontro aconteceu nem o que Galípolo iria tratar com o senador.

A proximidade com o círculo do banqueiro é anterior à reeleição. Em outubro de 2023, Alcolumbre é mencionado num grupo chamado “Macallan”. No grupo, Vorcaro, Fábio Faria e outros participantes conversavam sobre festas. Em março de 2024, Vorcaro e Faria discutiram a contratação de mulheres para uma festa paralela ao fórum jurídico em Londres, promovido pelo Master, onde estiveram os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entre outros. Faria disse que combinaria com Alcolumbre para manter o encontro em sigilo. Os diálogos não indicam que o senador tenha participado das festas ou do evento.

Não é a primeira vez que o nome de Alcolumbre aparece no caso Master. Como revelou o Bastidor, em 2024 a Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá, investiu 400 milhões de reais em títulos do Master. O diretor-presidente do fundo era um apadrinhado de Alcolumbre e o investimento foi feito apesar de avisos da área técnica.

As mensagens chegam num momento em que Alcolumbre é cobrado por segurar as iniciativas do Congresso para investigar o caso. Os requerimentos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Master e as ligações de Vorcaro com autoridades não avançaram em 2026. Em setembro, a recusa do Senado em informar os registros de entrada de visitantes na Casa, entre eles Vorcaro, passou a ser questionada numa ação judicial. Como a recusa envolve o presidente do Senado, o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal.

Alcolumbre também não deu andamento aos 60 pedidos de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, apresentados em parte depois que vieram a público conversas entre o ministro e Vorcaro. Em 1º de setembro, perguntado sobre essas mensagens, disse: “Eu não achei nada, não devo achar nada”.

No dia seguinte, reclamou de agressões e apontou para Flávio Bolsonaro, sem citá-lo pelo nome: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para fazer um filme, mas só o Moraes é o culpado”. A referência é ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, cujo financiamento o senador tratou com Vorcaro.

Em nota, a assessoria da Presidência do Senado afirma que a divulgação das conversas é “mais um injusto ataque” a Alcolumbre. Segundo a nota, as mensagens são “supostas”, têm “teor pessoal, inclusive de terceiros” e “não indicam ilegalidade alguma”. A nota diz ainda que Alcolumbre “sabe de onde partiram essas falsas acusações”.

A assessoria de Hugo Motta, procurada pelo Bastidor, não se manifestou.