Treze meses após a deflagração de sua primeira fase, a Operação Carbono Oculto voltou às ruas nesta quinta-feira (24) com foco no mercado financeiro. Um dos principais alvos da nova etapa é Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor e ex-sócio do Banco Genial, apontado pelos investigadores como integrante do núcleo financeiro que participou das tratativas para a compra da distribuidora de combustíveis Terrana.
Batizada de Crédito Oculto, a terceira fase investiga uma engenharia financeira que, segundo o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal, permitiu transformar recursos atribuídos ao grupo de Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, em crédito para empresas usadas na aquisição da distribuidora. A investigação confirma o que o Bastidor mostrou na ocasião: a Copape estava por trás do negócio.
O Banco Genial exerceu um papel relevante na estrutura e na realização da operação. Administrou o fundo que concentrava os recursos, emitiu títulos vinculados aos empréstimos concedidos às holdings criadas para comprar os ativos e manteve Humberto entre os executivos que negociavam com os personagens envolvidos na operação.
Segundo o Ministério Público, Humberto e seus irmãos André e Bruno Tupinambá formavam o “núcleo financeiro do Banco Genial”. Conversas obtidas pela investigação mostram que os três mantiveram contato com Paulo Narcélio Simões do Amaral desde maio de 2024, meses antes da montagem das operações de crédito.
Paulo Narcélio aparecia formalmente como controlador das empresas usadas na aquisição da Terrana. Mas, de acordo com a investigação, era um laranja de Mohamad e Beto Louco. Segundo a decisão judicial que autorizou as buscas, as conversas mostram que as negociações eram orientadas pelo advogado Rogério Garcia Peres e que Mohamad era o verdadeiro tomador das decisões.
Segundo os investigadores, Narcélio recebia uma comissão de 0,75% sobre a transação e pagamento por três meses de gestão para sustentar a aparência de que havia comprado a empresa.
A aproximação com o Genial ocorreu depois do rompimento de Mohamad e Beto Louco com a Reag, gestora de João Carlos Mansur. Como o Bastidor revelou, Mansur usou recursos de Mohamad e Beto Louco em operações de alto risco que beneficiaram o Banco Master. Depois da ruptura, segundo o Ministério Público, começou uma reorganização dos ativos do grupo via Banco Genial que desembocaria na compra da Terrana.
O primeiro passo foi abastecer a nova estrutura financeira. Entre 24 e 26 de julho de 2024, cerca de 100 milhões de reais chegaram, em quatro operações, à Usina Itajobi, apontada pela investigação como uma empresa ligada ao grupo de Mohamad e Beto Louco. O dinheiro partiu da Aster Petróleo e percorreu uma sequência de contas e empresas – entre elas BK Instituição de Pagamento, SM Serviços Empresariais e Duvale Distribuidora – antes de chegar à usina. Algumas transferências foram feitas com diferença de poucos minutos. Da Itajobi, praticamente o mesmo valor foi aportado no fundo de investimentos Radford.
É nesse ponto que o Genial entra formalmente na engrenagem.
O Radford havia sido constituído pela Altinvest, gestora ligada a Rogério Garcia Peres, e tinha a Usina Itajobi como única cotista. Em 1º de agosto de 2024, sua administração foi transferida para o Banco Genial. A Altinvest permaneceu como co-gestora. O fundo que havia acabado de receber os recursos atribuídos pela investigação ao grupo passou, assim, a ser administrado pelo banco.
Pouco mais de um mês depois, em 4 de setembro, foram abertas duas empresas que seriam fundamentais para a operação: Berna Holdings e Branson Holdings. As duas nasceram com capital de apenas mil reais cada, ficaram formalmente em nome de Paulo Narcélio e foram registradas em um endereço já relacionado pela investigação ao grupo de Mohamad.
A partir daí, o dinheiro que estava no Radford passou a servir de base para o crédito concedido às duas holdings. Em outubro, a Berna emitiu uma Cédula de Crédito Bancário, ou CCB, de 60,5 milhões de reais. O Radford aplicou seus recursos em outro tipo de título, Certificado de Depósito Bancário Vinculado, o CDBV, emitido pelo Banco Genial e atrelado à CCB. Na prática, o fundo administrado pelo banco comprava um título do Genial. O dinheiro desse título, por sua vez, ficava vinculado ao empréstimo concedido à Berna.
A operação foi repetida em dezembro, em escala maior. No dia 10 daquele mês, a Entre Investimentos depositou 20 milhões de reais em uma conta da Usina Itajobi na Credihome. O valor foi repassado ao Radford. No dia seguinte, a Branson emitiu uma CCB de aproximadamente 99,9 milhões de reais, novamente vinculada a um CDBV emitido pelo Genial.
Com os recursos, Berna e Branson financiaram a aquisição de dois ativos: as cotas do fundo Derby 44 e a Tramp Oil, posteriormente rebatizada de Branson Oil, controladora da Terrana. Mohamad e Beto Louco simularam a compra de uma distribuidora para contornar a proibição de a Copape operar.
O juiz Sandro Nogueira de Barros Leite classificou como “eloquente” a relação circular da operação. O dinheiro saía do Radford, cujo único cotista era a Usina Itajobi, passava por títulos emitidos pelo Genial e retornava na forma de crédito a duas empresas abertas poucas semanas antes. Essas holdings, então, usavam os recursos para comprar ativos que os investigadores atribuem ao mesmo grupo econômico.
A Receita descreve o mecanismo como uma estrutura “casada”: o fundo comprava os títulos emitidos pelo banco, que vinculava esses recursos aos empréstimos feitos às empresas usadas na aquisição. Para os investigadores, as sucessivas camadas de fundos, títulos, banco e holdings ajudavam a dissimular a origem do dinheiro e sua ligação com os beneficiários finais.
Humberto aparece diretamente nas conversas que acompanharam a montagem e o funcionamento da estrutura. Segundo a decisão, os diálogos de Paulo Narcélio com Humberto e seus irmãos se estenderam de maio de 2024 a agosto de 2025. As mensagens mostram as discussões sobre a negociação e a participação de Mohamad nas decisões.
Em um dos episódios destacados pelo juiz, Narcélio demonstrou preocupação com uma eventual fiscalização da Secretaria da Fazenda depois que recursos da Aster foram usados na quitação do empréstimo da Branson. Segundo a decisão, houve então uma “imediata exclusão dos diálogos por Humberto”. As empresas AT Assessoria e BT Assessoria, ligadas a André e Bruno Tupinambá, também receberam 469,2 mil reais cada uma da Aster Petróleo.
Outro ponto levantado pela investigação envolve os controles internos do próprio Genial. Informações fornecidas pelo banco à Justiça mostram que seu compliance havia identificado que Antonio Carlos Freixo Júnior, da Entre Investimentos, já havia sido responsabilizado pela Comissão de Valores Mobiliários. Ainda assim, segundo a decisão, as operações prosseguiram.
A investigação sustenta ainda que a mudança formal de controle da Terrana não afastou Mohamad da distribuidora. Em dezembro de 2024, poucos dias depois da segunda operação de crédito, foi criado o grupo de WhatsApp “Novo direção terrana”. Segundo a decisão, Mohamad usava uma linha identificada como “Leo” para transmitir instruções a Paulo Narcélio e a executivos das áreas financeira e contábil da companhia.
Em nota enviada à reportagem, o Genial afirmou que Humberto deixou de ser diretor e sócio da instituição em maio deste ano. O banco disse também que entregou ao Gaeco todas as informações que possuía sobre o Radford e as operações envolvendo Berna e Branson e que fez as comunicações cabíveis ao Coaf.
Segundo a instituição, as operações foram realizadas dentro das regras e com base nas informações disponíveis à época. O Genial afirma que, depois de tomar conhecimento dos fatos investigados, abriu uma apuração interna, reviu a governança das operações de crédito, afastou Humberto dos processos decisórios e posteriormente o destituiu.
A ligação formal do banco com o Radford terminou depois da primeira fase da Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. O Genial renunciou à administração do fundo, liquidou os CDBVs e cedeu ao próprio Radford os créditos das CCBs de Berna e Branson. Com isso, a camada intermediária formada pelos títulos do banco deixou de existir: o Radford passou a ser diretamente credor das duas holdings.
Para o Ministério Público, a movimentação reforça a suspeita de que essa camada tinha função de dissimular a origem e o destino dos recursos. O juiz também citou a saída do Genial da estrutura ao justificar o risco de movimentação dos ativos investigados.
O Genial afirma que deixou o fundo depois da deflagração da operação e que continuou colaborando com as autoridades.
A decisão que embasou a Crédito Oculto é cautelar. O próprio juiz ressalta que as buscas foram autorizadas com base em indícios e que a medida não representa uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos investigados.
O Bastidor buscou as defesas de Mohamad Hussein Mourad e Roberto Augusto Leme da Silva, mas não houve retorno. O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior também foi procurado e não respondeu. A reportagem não localizou a defesa de Humberto, André e Bruno Tupinambá.
Por meio de nota, a Reag contesta que o motivo do rompimento com Mohamad e Beto Louco tenha sido uma operação envolvendo o Master. “Ainda em 2024, a Reag renunciou à gestão de todos os fundos vinculados a esses cotistas por questões estritas de compliance, em decorrência dos desdobramentos da Operação Cassiopéia. Diante da renúncia unilateral por parte da administradora , os cotistas foram obrigados a retirar suas estruturas da instituição e buscar outra alternativa no mercado”, diz.
Leia a íntegra da nota do Banco Genial:
“O Banco Genial esclarece que “Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.
Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao COAF, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.
No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.
A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.
Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.
A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários”.