A decisão de afastar Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, causou uma reação interna em Brasília e nas 26 superintendências estaduais da corporação. A primeira reação partiu dos diretores da PF, uma espécie de segundo escalão da direção e, em sua maioria, aliados de Rodrigues. Eles emitiram um comunicado em apoio ao diretor afastado e colocaram seus cargos à disposição de quem assumir a direção-geral. Os chefes regionais também devem seguir a mesma abordagem, mas enfrentam resistências para elaboração de um posicionamento público.

Uma ala de delegados avaliou a decisão como prejudicial às investigações do Banco Master e das fraudes no INSS. O argumento é que o afastamento provoca uma reacomodação em todos os setores da PF, que vai afetar o ritmo e o método da apuração.

Já para um outro grupo, o afastamento de Rodrigues era previsível, mas seria necessário aguardar um trâmite interno, como um procedimento administrativo disciplinar aberto pela corregedoria, conforme determinado por Mendonça. Só assim a apuração conseguiria identificar mais detalhes sobre a produção dos relatórios de inteligência apócrifos.

O afastamento de Almada do cargo de diretor de Inteligência Policial, a DIP, uma das unidades mais importantes da PF, provocou estranheza. Para algumas autoridades ouvidas pelo Bastidor, o afastamento deveria ter abrangido também Denis Cali, diretor da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, a Dicor, já que a própria decisão de Mendonça sinalizou que a DIP não produziu os relatórios enviados a Moraes, mas tinha responsabilidade técnica e doutrinária sobre a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores (CINQ), onde foram feitos os relatórios.

“Muito embora se tenha apresentado a informação de que os ‘relatórios’ teriam sido elaborados
no âmbito da UADIP/CINQ/CGRC/DICOR/PF, que é “órgão de inteligência vinculado à Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores”, a referida unidade possui subordinação técnica e doutrinária à DIP”, disse o ministro.

Diante disso, pessoas próximas à investigação acreditam que seria importante apontar quem foi o servidor da PF que comunicou a Moraes sobre a existência de documentos que, até então, tramitavam apenas como troca de informações, de caráter sigiloso, entre a CINQ, subordinada à Dicor, e a DIP, departamento ligado diretamente à direção-geral da PF. O procedimento interno aberto contra Rodrigues e Almada deverá tentar esclarecer essa relação e identificar possíveis vazamentos.

Segundo outras pessoas próximas à investigação do caso Master, os delegados encarregados do caso eram os responsáveis por relatar por escrito, sob orientação dos superiores, os balanços das reuniões realizadas no gabinete de Mendonça, tanto com o ministro quanto com sua equipe, composta por dois delegados. A informação de inteligência chegava à DIP depois, para análise e tomada de decisão da direção-geral.

Com a determinação de Moraes para incluir Mendonça no inquérito das fake news, a DIP e o Cinq foram instados a enviar os relatórios de inteligência, o que foi feito sem questionamento da direção-geral sobre a legalidade do compartilhamento. De acordo com pessoas a par da investigação do Master, um acordo informal previa que os relatórios não fossem usados na íntegra por Moraes, mas apenas mencionados na decisão. Em 3 de setembro, Moraes levantou todo o sigilo sobre os relatórios e pediu ao ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, a abertura de investigação contra Mendonça por abuso de autoridade.

Em nota divulgada na noite desta terça, a Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF), defende que o afastamento de Andrei seja analisado pelo plenário do Supremo para evitar possíveis nulidades da investigação. A entidade ainda afirma que o país vive uma “crise institucional grave”.

Leia abaixo a íntegra do posicionamento: