Em 22 de junho, a Vale vivia a semana decisiva de uma guerra pelo comando do seu conselho. A Previ, maior acionista da companhia, pedira a destituição do presidente do colegiado, Daniel Stieler. Três dias antes, o conselho se recusara a recomendar a saída dele. Naquele dia, às 12h22, o gabinete do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, enviou um e-mail à Vale e pediu, “em regime de urgência”, uma reunião online com todos os conselheiros. No dia seguinte, uma pessoa próxima ao ministro procurou o vice-presidente do conselho, Marcelo Gasparino, e, por telefone, o alertou sobre os riscos pessoais e profissionais de continuar apoiando Stieler. Duas horas e meia depois, o próprio Silveira ligou. Segundo Gasparino, disse que Stieler não ficaria no cargo. Duas semanas depois, Stieler renunciou. A pressão funcionou.

Documentos obtidos pelo Bastidor mostram que foi Alexandre Silveira quem aplicou a pressão. Um dos ministros mais poderosos de Lula interveio, com sucesso, na governança de uma das maiores e mais estratégicas empresas do país, uma companhia aberta sem controlador, para derrubar o presidente do conselho e influenciar a escolha do sucessor. O e-mail do gabinete, os registros das ligações e o relato de quem as recebeu estão numa manifestação de 55 páginas que Gasparino entregou à Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, na terça-feira (6). É a primeira vez que a pressão do governo sobre a Vale aparece documentada: o e-mail do gabinete, com data e hora, os registros das ligações e e a minuta de um contrato de ‘indenização’ que a companhia diz não ter condicionado a renúncia.

Estava em jogo quem manda na maior mineradora do país. A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, tem cerca de 7% do capital da Vale e dirigentes escolhidos sob influência do governo. Em 11 de junho, a fundação pediu uma assembleia para destituir Stieler, que presidia o conselho desde 2023 e chegara lá pelas mãos da própria Previ, da qual fora presidente. No dia 19, o conselho recusou-se a recomendar a destituição e mandou à assembleia, marcada para 22 de julho, dois candidatos à presidência: Gasparino, que defendia Stieler, e Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o Ollie, apoiado pela Previ. Foi com o conselho em maioria contra o governo que Silveira, usando o peso do Ministério de Minas e Energia, entrou em campo.

O motivo nunca foi dito. Stieler era, até ali, o nome do governo na cadeira. Em janeiro de 2024, quando Lula tentou emplacar o ex-ministro Guido Mantega na Vale, Stieler esteve no Planalto com o presidente e com Silveira. Em março daquele ano, doou 20 mil reais ao PT. Em 2026, virou obstáculo. No voto que leu na reunião de 19 de junho, Gasparino escreveu que Stieler relatara aos colegas “fatos gravíssimos” envolvendo “pelo menos três ministros de Estado”. Citou o projeto BAMIN, que reúne uma mina de ferro, uma ferrovia e um porto na Bahia, e no qual o governo queria a participação da Vale; a repactuação das concessões ferroviárias, pela qual a Vale antecipou 4 bilhões de reais à União em dezembro de 2024; e os projetos “Mini-minas”, parcerias com pequenas mineradoras que, segundo Gasparino, envolvem conflito de interesses e resultaram no direcionamento de ativos a determinadas empresas. O trecho foi retirado da versão final do voto a pedido de outros conselheiros e por recomendação do assessor jurídico do conselho. O documento entregue à CVM não prova nenhum desses episódios. Mas registra que eles foram o contexto para a pressão do governo.

A manifestação é a segunda que Gasparino entrega à CVM. Entra no processo que apura se a Vale disse a verdade ao regulador sobre a saída de Stieler. Ela reúne três tipos de prova. Documentos: o e-mail do gabinete do ministro, transcrito com remetente, destinatários e hora, trechos da ata da reunião do conselho de 2 de julho e a primeira minuta do contrato que a Vale redigiu para pagar Stieler na saída. Gravações: três áudios lavrados em ata notarial, com duas conversas com Stieler, em 29 de maio e 1º de julho, e uma com a conselheira Heloisa Bedicks, em 12 de junho. Uma quarta conversa, com a conselheira Rachel Maia, é transcrita sem referência à ata. E fotografias de telas de celular, do dele e do de Stieler, com mensagens e registros de chamadas. O resto é relato, quase sempre de Stieler a Gasparino, e o documento diz quando é.

Gasparino é parte interessada. Perdeu a disputa pela presidência para Ollie e renunciou ao conselho em 27 de julho, depois que uma investigação contratada pela Vale atribuiu a ele o vazamento de informações confidenciais. A companhia havia decidido propor sua destituição aos acionistas e o afastara de dois comitês. Gasparino nega ter vazado informação confidencial. Ele mesmo escreve que não afirma ter havido coação e pede que a CVM apure. Partes da história já haviam circulado em versões parciais e sem documentos. O que o documento entregue à CVM acrescenta é a prova e a sequência dos fatos.

A pressão começou antes da carta da Previ. Em 10 de fevereiro de 2026, segundo o relato de Stieler a Gasparino, o ministro Alexandre Silveira pressionava por assuntos submetidos ao conselho e via a atuação de Stieler como obstáculo “a determinados pleitos, inclusive com reflexos perante a Previ”. Em 29 de maio, numa conversa gravada, Stieler contou que circulava uma gravação de reunião do conselho sobre as ferrovias, com uma fala sua. Gasparino perguntou se “alguém do Governo teve acesso e está brabo conosco”. Stieler respondeu que sim.

Em 10 de junho, às 20h42, Stieler recebeu uma chamada em grupo de Marcio Chiumento, presidente da Previ e, desde fevereiro, também conselheiro da Vale, e de Vitor Vallim, da Previ. Segundo contou a Gasparino, ouviu o seguinte: “A gente gostaria que você avaliasse renunciar até amanhã, e não havendo uma resposta até amanhã, na sexta-feira a Previ vai enviar uma carta solicitando uma AGE para te destituir”. A carta chegou no dia seguinte. A captura da tela do celular de Stieler, reproduzida na manifestação, mostra o registro da chamada. Mostra também, logo acima, uma conversa anterior entre Stieler e Chiumento sobre a ferrovia. “Muita grana .. tá louco! Somos reféns”, escreveu o presidente da Previ. “Mais fácil dar ações pra eles .. se fecharem a ferrovia eles não recebem.”

Tela do celular de Stieler: conversa com Marcio Chiumento, presidente da Previ, sobre a ferrovia, e o registro da ligação em grupo de 10 de junho, às 20h42, com Chiumento e Vitor Vallim. Captura reproduzida na manifestação.
Tela do celular de Stieler: conversa com Marcio Chiumento, presidente da Previ, sobre a ferrovia, e o registro da ligação em grupo de 10 de junho, às 20h42, com Chiumento e Vitor Vallim. Captura reproduzida na manifestação.

Dentro do conselho, a pressão vinha por outra via. Em 12 de junho, Heloisa Bedicks, coordenadora do comitê de auditoria, disse a Gasparino, em conversa gravada, que Stieler “tinha que ter renunciado antes do nome dele ir pra mídia”. Em 14 de junho, Rachel Maia, em conversa transcrita no documento, disse que o presidente executivo da Vale, Gustavo Pimenta, e “investidores de referência” apoiavam Ollie, e sugeriu que Gasparino negociasse para si a função de Lead Independent Director, porque, disse ela, “a Vice-Presidência não te dá porra nenhuma”. No dia 18, segundo relato que chegou a Gasparino, o Lead Independent Director da Vale ofereceu a Stieler uma carta de recomendação para presidir conselhos de outras companhias e sugeriu que renunciasse. O documento não nomeia o conselheiro. Ollie ocupava a função desde 2023.

Registro das ligações entre Rachel Maia e Gasparino em 14 de junho. A conversa é transcrita na manifestação.
Registro das ligações entre Rachel Maia e Gasparino em 14 de junho. A conversa é transcrita na manifestação.

Foi com a Previ derrotada no conselho, na reunião de 19 de junho, que o gabinete de Silveira escreveu à Vale. O e-mail de 22 de junho, 12h22, assinado pela assessora técnica Izildinha Sousa Sales e dirigido ao diretor de governança corporativa Luiz Gustavo Gouvea, diz que o ministro a incumbiu de solicitar “em regime de urgência” uma reunião on-line com todos os membros do conselho, de preferência dois dias depois, às 15h. Não diz o tema da reunião. Na tarde do mesmo dia, Gasparino perguntou a Stieler por mensagem: “estão te assediando aí?”. “Sim!!!”, respondeu Stieler às 15h58. Às 16h25: “Ameaças de abrirem caixa de Pandora!!!”. Segundo o relato dele a Gasparino, a Previ o abordou de novo naquele dia, e lhe foi “transmitido” que haveria “perseguição” se insistisse em ficar.

"Estão te assediando aí?" "Sim!!!" "Ameaças de abrirem caixa de Pandora!!!" Conversa entre Gasparino e Stieler na tarde de 22 de junho. Imagem parcialmente ocultada no documento.
“Estão te assediando aí?” “Sim!!!” “Ameaças de abrirem caixa de Pandora!!!” Conversa entre Gasparino e Stieler na tarde de 22 de junho. Imagem parcialmente ocultada no documento.

No dia 23, Marisete Pereira procurou Gasparino por mensagem. “Amigo, boa tarde. Vc pode falar?”, escreveu às 13h35. Às 14h10, os dois falaram por telefone, por 18 minutos. O texto da manifestação a descreve como “pessoa anteriormente vinculada ao Ministério de Minas e Energia”. A fotografia da tela traz o nome. Marisete foi secretária-executiva do ministério entre 2019 e 2022 e é próxima de Silveira. Segundo Gasparino, ela o alertou sobre os “riscos pessoais e profissionais” de seguir apoiando a permanência de Stieler.

Às 16h47, a tela registra uma chamada perdida de “Alexandre Silveira MME”. No texto, Gasparino escreve que recebeu a ligação do ministro naquele horário e relata o que ouviu: segundo sua recordação, o ministro disse que Stieler não ficaria na presidência porque a permanência dele já não interessava ao conselho. O registro da chamada é documento. O conteúdo, e o momento em que a conversa se deu, são a memória de Gasparino. A reunião pedida pelo gabinete não aconteceu, por resistência de conselheiros. O documento não trata dela.

Em nota, o Ministério de Minas e Energia, o MME, afirma que “a referida reunião não ocorreu, assim como o contato telefônico mencionado. O MME reforça que o ministro respeita integralmente a governança da companhia e rechaça qualquer tipo de relação ou interferência no processo de sucessão do conselho da empresa. Lembra, ainda, que, segundo informações que circularam na imprensa, o ex-conselheiro, antes de renunciar ao cargo, havia sido afastado do mesmo por desvios de conduta.” A nota se refere a Gasparino, afastado de dois comitês do conselho antes de renunciar.

O cerco se fechou nos dias seguintes. Em 24 de junho, às 17h14, a conselheira Anelise Lara escreveu a Stieler: “Eu e Bill gostaríamos de bater um papo contigo mas fora da Vale. Estamos muito preocupados com a situação toda.” Bill é Wilfred Bruijn, conselheiro independente. No café da manhã do dia 25, segundo Stieler contou a Gasparino, os dois disseram que Bruijn havia se reunido com Pimenta e que Stieler devia aceitar uma “renúncia negociada”, com “composição financeira”. Foi nesse dia que Gasparino pediu para ver as mensagens no celular de Stieler e as fotografou.

"Estamos muito preocupados com a situação toda." Anelise Lara convida Stieler para encontro fora da Vale com Bill Bruijn, em 24 de junho.
“Estamos muito preocupados com a situação toda.” Anelise Lara convida Stieler para encontro fora da Vale com Bill Bruijn, em 24 de junho.

Em 1º de julho, véspera de uma reunião extraordinária do conselho, Stieler e Gasparino falaram por telefone. A conversa foi gravada. “O pessoal está pensando numa saída indenizatória, digamos assim”, disse Stieler. Julian Chediak, consultor jurídico do conselho, “parece que tomou a frente disso”. Pimenta “não tá neutro, ele não tá neutro, o Gustavo Pimenta tá apoiando”. A proposta era de 24 honorários mensais: “Essa condição é uma condição de renúncia nesse momento, eu falei assim, ‘olha, isso aqui fica na mesa, mas tem que ter uma renúncia da tua parte'”.

No dia 2, o conselho se reuniu. Gasparino cita a ata. Ela registra que Stieler “cogitava renunciar” e que a cogitação dependia de dois temas: uma carta de agradecimento da Vale e o acordo de não competição. Heloisa Bedicks explicou, segundo a ata, que o acordo “é uma proposta da companhia”, negociada por Chediak, “representando a Vale, com o advogado de DS, por recomendação do CARE”, o comitê de auditoria. A proposta de deliberação autorizava o Comitê Executivo a assinar o contrato “em caso de sua renúncia”, com 24 pagamentos no valor do que Stieler recebia por mês, mais honorários de assessores até 10% do total. A remuneração do presidente do conselho era de cerca de 268 mil reais mensais, segundo a Folha. Nessa base, o pacote chega a 6,4 milhões de reais. O conselheiro Franklin Feder pediu a análise da consultoria que validou os valores. Também foi pedido um parecer escrito de Chediak. Gasparino diz que, até deixar o conselho, em 1º de agosto, não os recebeu.

Na noite de 3 de julho, Stieler mandou a Gasparino a primeira minuta do contrato, redigida pela Vale. “O contrato q me disponibilizaram, não tem como eu assinar!”, escreveu às 21h59. “Muitas restrições!”. A minuta está anexada à manifestação. No texto, chama-se “Contrato de Indenização por Não Competição e Outras Avenças”. Fala em “indenização devida para Daniel”. É redigida para ser assinada no dia da renúncia, que ainda não existia: “nesta data, Daniel renunciou ao seu mandato de conselheiro”. A cláusula sobre a natureza do pagamento está em branco, “aguardando definição”. Outra encerra os pagamentos se Stieler voltar ao conselho da Vale. Cada descumprimento prevê multa de 5 milhões de reais. Gasparino ressalva que o texto mudou até a versão assinada.

Stieler renunciou em 6 de julho. Dois dias depois, após a imprensa noticiar uma composição financeira, a CVM pediu explicações à Vale. A companhia respondeu que a saída “decorreu de decisão pessoal”, que essa decisão “motivou a negociação” do contrato, “e não o contrário”, e que não houve qualquer acordo ou indenização que tivesse condicionado a renúncia. Segundo a mineradora, o pagamento compensa as obrigações de não concorrência, confidencialidade e outras restrições assumidas por Stieler durante 24 meses.

A explicação contrasta com as regras de remuneração divulgadas pela própria Vale. No Formulário de Referência de 2026, a companhia prevê pacotes de desligamento para integrantes do Comitê Executivo, incluindo indenizações e compensações por não concorrência. Para os membros do conselho de administração, porém, informa que não há benefícios motivados pelo encerramento do mandato. O documento também afirma que a Vale não celebra outros contratos que estabeleçam mecanismos de remuneração ou indenização em caso de destituição de conselheiros.

Por e-mail, a Vale afirmou não ter “comentários (a fazer) além dos comunicados oficiais anteriormente divulgados”.

Em 22 de julho, a assembleia elegeu Ollie presidente do conselho, com 1,98 bilhão de votos contra 1,07 bilhão de Gasparino, que também disputava o cargo. A vitória da Previ, no entanto, foi parcial. O fundo conseguiu emplacar seu candidato à presidência, mas não José Maurício Pereira Coelho, indicado para ocupar a cadeira deixada por Stieler. Os acionistas preferiram Ieda Gomes Yell, candidata indicada pelo conselho da Vale. A troca de Stieler, portanto, não deu à Previ todas as posições que pretendia. Cinco dias depois, Gasparino renunciou. Stieler saiu após negociar um contrato de não concorrência que prevê restrições profissionais por dois anos.

Procurada, a Previ se limitou a enviar uma nota divulgada em junho. “A Previ reforça que sua decisão de solicitar ao Conselho de Administração da Vale a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE), para submeter à aprovação dos demais acionistas a indicação do Sr. José Maurício Pereira Coelho para integrar o Conselho de Administração (CA) da Companhia, em substituição ao Sr. Daniel Stieler, é uma iniciativa alinhada ao seu papel de investidora institucional, comprometida com a fiscalização e a indução das melhores práticas para uma governança sólida, independente e livre de interferências, em linha com o modelo de Empresa de Capital Difuso (Corporation)”, diz o texto

Na manifestação à CVM, Gasparino pede que o órgão examine a consistência das informações prestadas pela mineradora e avalie eventuais irregularidades.

Em nota, a CVM afirma que sua área técnica não comenta casos específicos. “Informações públicas sobre processos abertos na CVM podem ser acessadas no site da autarquia. Sem prejuízo do exposto acima, informamos que todo cidadão pode solicitar acesso aos autos de um processo na Autarquia. Para isso, o pedido deve ser feito por meio do protocolo digital. Adicionalmente, com relação às penalidades que podem ser aplicadas pela CVM em face do resultado de um processo administrativo sancionador, o rol está disposto no art. 11 da Lei 6.385/76. Importante destacar que a aplicação das penalidades ocorre em face da análise de todo o conteúdo processual, inclusive, as circunstâncias da infração administrativa”, diz o texto.

O que o documento prova é estreito e, por isso, sólido. A Previ deu um ultimato, segundo o relato de Stieler. O ministério pediu reunião urgente com o conselho inteiro. O celular do vice-presidente registra uma chamada do ministro, que o MME nega. Uma pessoa próxima do ministro o alertou sobre riscos. A companhia redigiu um contrato de “indenização” condicionado a uma renúncia que depois chamou de decisão pessoal. O que o documento não prova é o motivo. Por que o governo quis trocar o presidente do conselho da Vale, e o que havia na “caixa de Pandora”, continua fora dos autos. Mas está na memória de quem participou da crise.

Leia a íntegra da nota da Previ: