O Banco Central do Paraguai determinou a intervenção no Ueno Bank após identificar empréstimos suspeitos a empresas ligadas aos controladores da instituição. A crise atingiu o próprio órgão regulador. Nesta terça-feira (3), seu presidente, Carlos Carvallo, anunciou a renúncia. Ele havia comandado o Ueno antes de assumir o cargo.
Carvallo presidiu a Financiera Ueno, antecessora do banco, até agosto de 2023. Um mês depois, assumiu o Banco Central do Paraguai. O BC paraguaio diz que ele se declarou impedido de participar de decisões sobre a instituição. Ao anunciar a renúncia, Carvallo disse que permaneceria temporariamente no cargo para acompanhar o processo de intervenção.
Os problemas no Ueno começaram a aparecer em junho. No dia 5, o BC paraguaio notificou a instituição para adequar empréstimos a empresas do mesmo grupo econômico aos limites previstos em lei. Os vínculos entre os beneficiários e os donos do banco não estavam claros nos documentos. Para identificá-los, os fiscais precisaram rastrear o caminho percorrido pelo dinheiro.
A fiscalização também encontrou falhas na documentação dos empréstimos e registros de serviços de informática sem justificativa suficiente. As irregularidades exigiram provisões adicionais para cobrir possíveis perdas e agravaram a situação financeira do banco.
Após ajustes no balanço, o índice de solvência do Ueno caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei. O BC paraguaio afirma que a divulgação de informações sensíveis também acelerou a perda de liquidez. Na segunda-feira (2), decidiu iniciar o processo de resolução, semelhante à liquidação extrajudicial no Brasil.
O procedimento prevê a nomeação de interventores para preservar o patrimônio do banco e administrar seus ativos e passivos. O BC paraguaio diz ter reunido elementos para denunciar possíveis fraudes às autoridades competentes, mas não identificou publicamente os responsáveis nem detalhou os crimes sob suspeita. Segundo o órgão, a decisão resultou de meses de investigação.
Para os clientes, a principal preocupação é recuperar o dinheiro. O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre até 228,3 milhões de guaranis, cerca de 210 mil reais, por pessoa ou empresa em cada banco, independentemente do número de contas. Quem possui valores acima desse limite dependerá da recuperação dos ativos da instituição.
A crise ocorre em meio ao crescente interesse de brasileiros pelo Paraguai. Somente no primeiro semestre de 2026, o país concedeu 22.628 autorizações de residência a brasileiros, segundo dados oficiais. O Ueno oferecia contas a estrangeiros com documentação paraguaia. Não há informações sobre quantos brasileiros mantinham dinheiro na instituição.
Esses depósitos não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos brasileiro, mas estão sujeitos às regras paraguaias. O Banco Central do Paraguai sustenta que o caso do Ueno é isolado e não ameaça a estabilidade do sistema financeiro do país.