A Fictor conseguiu adiar para 4 de dezembro a assembleia de credores, mesmo sem apresentar uma nova proposta para pagar sua dívida de 4,3 bilhões de reais. A suspensão foi aprovada por ampla maioria nesta quarta-feira (14), após uma reunião marcada por críticas à falta de transparência da companhia e dúvidas sobre sua capacidade de honrar os compromissos.
Pressionado pelos credores, o advogado da Fictor, Daniel Machado Amaral, afirmou que a empresa possui direitos creditórios que poderão ser utilizados para pagar as dívidas. Entre os ativos citados está o fundo Krispy, ligado a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado.
Em outubro de 2025, um mês antes de anunciar a tentativa frustrada de comprar o Master, a Fictor assinou um contrato de 500 milhões de reais com a Titan Capital Holding, empresa de Vorcaro registrada nas Ilhas Cayman, para adquirir cotas do Krispy. O negócio envolvia direitos de recebimento de ações judiciais da Usina São João e da Agro Industrial Tabu, avaliados à época em cerca de 1,6 bilhão de reais.
Esses valores, porém, não representam dinheiro disponível em caixa. O recebimento depende da recuperação dos créditos judiciais, e a Fictor não esclareceu quanto desses recursos poderá efetivamente ser usado para pagar os credores.
Durante a assembleia, uma credora questionou por que a empresa não havia informado anteriormente a existência desse ativo. Também manifestou dúvidas sobre a possibilidade de recuperar valores ligados a negócios com Vorcaro, diante da liquidação do Master e das suspeitas de fraude envolvendo o banco.
A reunião foi realizada de forma virtual e reuniu quase 1,2 mil participantes. Credores e advogados cobraram informações sobre a geração de caixa da Fictor, seus ativos e a viabilidade do plano de recuperação judicial. Também criticaram o pedido de suspensão sem a apresentação de uma proposta alternativa ou de documentos que justificassem o adiamento.
O plano atual prevê, em determinadas condições, descontos de até 95% sobre os valores devidos. Os credores defenderam o pagamento integral das dívidas, mesmo que de forma parcelada.
A desconfiança apareceu nas manifestações. Um credor questionou o destino do dinheiro captado pela Fictor. Outro afirmou ter a impressão de participar de uma recuperação judicial na qual não havia patrimônio a recuperar.
Daniel Amaral negou que o pedido de suspensão tivesse caráter protelatório e afirmou que a companhia não tem interesse em falir. Segundo ele, o prazo adicional permitirá negociar uma proposta com condições de ser aprovada.
A suspensão recebeu 3.734 votos favoráveis, equivalentes a 88,53% dos votos computados. Outros 484 votos foram contrários. Considerando o valor dos créditos representados na votação, a aprovação foi de 86,49%, o equivalente a 1,1 bilhão de reais. Nem todos os credores participaram da assembleia.
A Fictor terá até 19 de novembro para apresentar um novo plano, 15 dias antes da retomada da reunião. Os credores também aprovaram a criação de um comitê para fiscalizar a recuperação judicial e acompanhar as informações financeiras da companhia.
O grupo Fictor entrou em recuperação judicial em fevereiro deste ano, após a crise desencadeada pela tentativa frustrada de aquisição do Master em 2025. A Fictor atribui suas dificuldades financeiras à corrida de investidores para retirar recursos depois do episódio. O processo envolve aproximadamente 13 mil credores.
Após o encerramento da assembleia, o CEO da Fictor, Rafael Góis, afirmou que tem participado diretamente das negociações com os credores nos últimos meses. Segundo ele, a companhia realizou encontros e workshops para apresentar as condições de pagamento, esclarecer dúvidas e receber sugestões.
“Esse processo tem sido fundamental para identificar pontos de convergência e construir um plano que concilie os interesses dos credores com a continuidade das atividades da companhia”, afirmou Góis em nota.