Mensagens descobertas pela Polícia Federal mostram que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, desfrutava da amizade dos dois presidentes do Poder Legislativo federal. Assim como fazia com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Vorcaro chamava o hoje presidente da Câmara, Hugo Motta, de “amigo” e “irmão”. A diferença nas mensagens conhecidas até agora é que Motta tratou com Vorcaro de um “formato de sociedade” na compra de um terreno em João Pessoa.

As conversas foram obtidas pelo jornal Folha de S.Paulo. As mensagens vão de 9 de março de 2024 a agosto de 2025. Na época das tratativas do que é chamado de “modelo de sociedade”, em 2024, a empresa responsável pela compra da área tinha acabado de ser transferida para o nome de Bianca Medeiros, cunhada de Hugo Motta.

Na primeira conversa, Motta avisa Vorcaro que os documentos transferindo a empresa para a cunhada estão assinados. Diz acreditar que Adriana, a mulher com quem Bianca negocia e não é identificada, desconhece o formato de sociedade combinado. Pede orientação porque o prazo para pagar a Intercement, empresa do setor de cimento, é curto.

Vorcaro responde que vão fazer uma operação rápida com Adriana e, em paralelo, organizar a questão da sociedade. Nenhuma das mensagens diz quem são os sócios. Em 13 de março, Motta conta a Vorcaro que está ao lado do sogro e que acabaram de resolver as assinaturas que faltavam para o pagamento. Dois dias depois, agradece a confiança e a parceria e diz que tudo deu certo a tempo de cumprir o contrato. Vorcaro responde que aquele é “o início de uma parceria de vida”. O banqueiro disse o mesmo, em diferentes ocasiões, ao senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí.

Bianca é irmã de Luana Motta, esposa de Hugo Motta. Em 8 de março de 2024, um dia antes da primeira mensagem, ela comprou todas as cotas da ETC Participações, de capital social de 100 mil reais, segundo a Junta Comercial de São Paulo. Em 15 de março, dia do agradecimento de Motta, a empresa assinou com o Master um empréstimo de pelo menos 22 milhões de reais, com as cotas como garantia. Em dezembro de 2024, o último registro da empresa na Junta Comercial da Paraíba listava a dívida.

Com o dinheiro, a ETC comprou, em abril de 2024, uma fábrica de cimento desativada em uma área de mais de 400 hectares. O plano era lotear a área e transformá-la em um bairro. O terreno custou 45 milhões de reais. O valor fiscal, calculado pela prefeitura, é de 101 milhões de reais, segundo as matrículas do imóvel.

As mensagens vão além dos empreendimentos empresariais e entram na política, área de Motta. Nessa época, Motta era um deputado federal com acesso ao então presidente da Câmara, Arthur Lira. Em 23 de março de 2024, Motta pede a Vorcaro um estudo da equipe do banco sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), para discutirem onde encaixar o assunto. Não há mais detalhes sobre qual seria o assunto ou qual o contexto. Contudo o modelo de negócio do Master se baseava em oferecer ao mercado CDBs que pagavam até 140% do CDI, uma taxa muito acima da média, com a garantia do FGC.

Em novembro de 2024, Motta encaminha a Vorcaro informações sobre o projeto do mercado de carbono aprovado pelo Senado, de interesse do Master. No dia 19, os dois combinam um encontro, e Motta diz que vai mandar o texto.

Hugo Motta foi eleito presidente da Câmara em 1º de fevereiro de 2025. Em 3 de março, ele pede a Vorcaro quatro entradas no camarote para o Desfile das Campeãs do Carnaval do Rio. O banqueiro responde que consegue quantas ele quiser e pede os dados dos convidados.

No mesmo mês, depois de um telefonema de dois minutos, Motta encaminha a Vorcaro a mensagem de uma pessoa que parece ser jornalista. A pessoa pergunta se o deputado quer comentar a tentativa de compra do Master pelo BRB. Vorcaro quer saber de onde ela é. Motta diz que não sabe, e que mandou a imagem para ver se o banqueiro conhece a pessoa.

Em 23 de maio de 2025, Vorcaro conta a Motta que está em São Paulo e vai passar o fim de semana em Belo Horizonte. E acrescenta: “Mas queria mesmo era estar em Mônaco com você”, seguido de risos. Em seguida, os dois se falam por telefone por quase oito minutos. Vorcaro envia o contato de um motorista e pede que Motta diga a ele se “prefere uma pessoa para servir” ou se “não quer ninguém na casa na hora”. “Blz irmaozao. Muito obrigado”, responde o deputado. As mensagens não identificam a casa. Em julho de 2025, Vorcaro tomou café da manhã na residência de Motta.

No mesmo mês, a venda do Master ao BRB dependia do aval do Banco Central. Em conversa que veio a público na semana passada, com a descoberta da amizade entre Vorcaro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Vorcaro conta a Motta que tentou falar com Alcolumbre, sem conseguir informações sobre a negociação. Motta responde que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ficou de ir à “casa de Davi” depois de uma reunião. Em agosto, Motta convida Vorcaro para ir à “casa de Davi”. O banqueiro pergunta se o anfitrião sabe que ele vai. Motta responde que sim. 

Em nota, o presidente da Câmara, Hugo Motta, afirma que “não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados”.

Leia a íntegra da nota de Hugo Motta:

“Enquanto parlamentar em meu quarto mandato na Câmara dos Deputados, sempre mantive diálogo com os diversos segmentos do empresariado e representantes da sociedade brasileira.

Enfatizo que não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados e repudio a tentativa de atribuir conversas descontextualizadas a qualquer relação de interesse espúrio ou de favorecimento por minha parte. Tenho uma vida limpa, assim como é limpa a minha atuação política nesses 15 anos de vida pública.

Informo que estou protocolando queixa-crime contra o senador Veneziano Vital do Rego, diante da série de calúnias, de difamação e produção de fake news que ele tem efetivado contra mim neste período eleitoral. Não permitirei a suspeição de ilícitos promovidos por ele, especialmente com fins eleitoreiros.

Como já explicitei anteriormente, o contrato de empréstimo realizado por empresa privada com um banco privado se deu quando não se tinha conhecimento dos fatos e investigações que posteriormente vieram a público sobre o Master e o seu dono.

Reitero que confio nos órgãos responsáveis pelas investigações, a quem cabe responder pelas apurações.”