Análise: protestos vazios expõem ilusão de frente ampla

Diego Escosteguy
Publicada em 12/09/2021 às 15:36
Foto: Bruno Santos/Folhapress

Os fatos da semana passada e os fracos protestos deste domingo reforçam que pouco ou nada mudou nos últimos anos quanto à possibilidade de uma frente ampla que se oponha a Bolsonaro. A utopia nostálgica de um novo movimento democrático, aos moldes de 84, segue viva apenas no plano das ideias - e, neste domingo modorrento, talvez tenha sido solapada até mesmo como devaneio. 

Divisões ideológicas, ressentimentos insuperáveis e falta de clareza estratégica impediam e impedem a criação dessa frente. Desde que se entenda essa frente como amálgama de todas as forças políticas contrárias a Bolsonaro. E isso incluiria, em algum grau, Lula e o PT. 

Não há conciliação possível - nem mesmo tácita - entre Lula e PT e os demais proponentes da frente ampla, sejam movimentos sociais (MBL, VPR e Livres, por exemplo), sejam partidos e suas lideranças.

O PT e Lula, assim como movimento sociais próximos a eles, não querem ações substantivas contra Bolsonaro ao lado de forças de qualquer coloração ideológica. Esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita, direita: não importa. 

O PT não aceita isso por uma miríade de razões: política (os possíveis aliados circunstanciais lideraram o impeachment contra Dilma); estratégica (Lula lidera 22 e não tem incentivos para apear Bolsonaro do poder); e ideológica (a vocação autoritária e hegemônica do partido segue inabalável).

Naturalmente, lulistas e petistas discordam dessa interpretação. Entretanto, Lula e o PT demonstram cotidianamente que consideram deter o monopólio das virtudes políticas - o único e certo caminho para salvar o país passa por eles, os verdadeiros democratas.

Em síntese, a única opção para marchar ao lado do PT é - e sempre foi - como coadjuvante. Não há indicação de que isso vá mudar. 

Não se trata apenas do PT, claro. Parte expressiva daqueles que lideram, ou tentam liderar, uma frente ampla também não queriam nem querem, não de verdade, o apoio do partido e de Lula, caso houvesse perspectiva real disso. 

Nesse campo, também há ressentimentos, hostilidade política e diferenças ideológicas. Daí o slogan, ainda prevalente, do “Nem Lula nem Bolsonaro”. Um chamado por uma terceira via em 22 ainda se confunde com a agenda do impeachment do presidente, esboroando objetivos estratégicos.

Essa confusão de pautas esteve presente nos atos de hoje. Quem foi às ruas queria o impeachment de Bolsonaro? Manifestar-se contra Bolsonaro e, também, contra Lula? Pedir uma alternativa aos dois em 2022? Ou uma combinação das três coisas?

Não parecia haver uma causa comum, que organizasse os anseios dos descontentes - uma clareza inegociável, por exemplo, quanto ao impeachment de Bolsonaro. Nos atos do 7 de setembro, que reuniram muito mais gente, os manifestantes expressaram seu descontentamento com o Supremo e seu apoio a Bolsonaro.

É provável que a ausência de uma demanda específica tenha prejudicado a mobilização daqueles que poderiam ser convencidos a sair de casa hoje. Ou se pede o impeachment - ou se faz campanha para 2022.

Lula e o PT já fizeram sua opção. Ela não inclui o impeachment. A Lula e a Bolsonaro interessa a desorganização de quem não está no campo deles. São as eleições que mais interessam a eles: ambos no segundo turno, superando adversários que pulverizam votos - e que, se estivessem unidos, poderiam, em tese, derrotar quaisquer um dos dois.

Embora esperada, a ausência de Lula e do PT nos atos de hoje, e, antes disso, nas discussões sobre a frente ampla, demonstram que aqueles que desejam parar Bolsonaro, seja agora, por meio de um improvável impeachment, seja no próximo ano, por meio do voto, podem contar apenas com suas próprias forças.