Análise: ninguém confia em ninguém na sucessão presidencial

Diego Escosteguy
Publicada em 15/02/2021 às 10:03
Foto: Folhapress

A política em Brasília, especialmente a que envolve os opositores de Bolsonaro, está num momento frágil para a construção das alianças necessárias à vitória em 2022. Falta um consenso acerca do que poderia ser simples: quem e o que devem defender aqueles que pretendem substituir o atual presidente.

Falta, antes disso, um artigo essencial: confiança mínima entre aqueles que dizem defender uma coalizão para derrotar Bolsonaro.

No DEM, todo mundo se diz traído por, bem, todo mundo. Rodrigo Maia diz que foi traído por ACM Neto. ACM Neto diz que foi traído pelo deputado João Roma, que, embora esteja hoje no Republicanos, é afilhado político do ex-prefeito de Salvador - Roma será ministro da Cidadania de Bolsonaro. Os demais deputados se dizem traídos ora por Rodrigo Maia, ora por ACM Neto.

No PSDB, um BBB permanente da política brasileira, desconfiança e traição são traços, não desvios. Chefes regionais do partido se dizem traídos por Doria - que, em tese, deveria ter conduzido com mais suavidade a construção de sua candidatura. Aécio e outros se disseram traídos por Doria. Doria, diante da desconfiança generalizada na cúpula da legenda, ameaça levar seu bonde presidencial a outro partido.

Luciano Huck e Sergio Moro conversam com partidos, mas seguem sem confiar em ninguém - em muitos casos, há reciprocidade.

Na esquerda, Ciro, PSB e lideranças de partidos como Rede e PSOL não confiam que o PT de Lula possa, de fato, abdicar de uma candidatura própria. Haddad já está na rua. Para a esquerda crescente que não se alinha ao lulismo, parece ser impossível (e provavelmente é mesmo) fechar uma chapa que exclua Lula e o passivo do ex-presidente - um passivo mais forte do que muitos na bolha da velha esquerda supõem.

Enquanto ninguém confia em ninguém na oposição, Bolsonaro confia no centrão para viabilizar sua reeleição. O centrão, como se compõe de profissionais da traição - ou melhor, compõe-se de políticos acostumados com o ofício de trair - não confia em ninguém. Apoiará quem entregar mais em privado e prometer menos em público - há uma correlação inversamente proporcional entre as duas coisas.